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domingo, 12 de março de 2017

Lula de novo pode ser um remake de mau gosto 1



COMENTÁRIO: Acredito que Lula foi a maior liderança popular brasileira pós ditadura militar e que pode contribuir muito para o restabelecimento da democracia no nosso país. O PT foi a organização social-democrata que conseguiu encampar as reivindicações do campo popular e alimentar os sonhos de mudança da maioria da classe trabalhadora do Brasil. O PT pode colaborar muito para a derrocada do golpe. Mas devagar com o andor... Esse texto do Prof. Luis Felipe Miguel traz uma importante reflexão sobre o que está em jogo nas eleições de 2018 e a atuação que Lula pode ter neste processo. O povo não precisa de um Messias, o povo precisa é lutar!!! 






Prof. Luis Felipe Miguel
No Portal Brasil 247

8 de Março de 2017


Intelectuais e artistas lançaram MANIFESTO PEDINDO QUE LULA ASSUMA, DESDE JÁ, SUA CANDIDATURA À PRESIDÊNCIA da República. No tom laudatório e hiperbólico próprio destes documentos, O TEXTO AFIRMA QUE O RETORNO DE LULA É A ÚNICA MANEIRA DO POVO BRASILEIRO RECUPERAR SUA DIGNIDADE DEPOIS DO GOLPE E DE TODO O RETROCESSO QUE O GOVERNO TEMER PROMOVEU E ESTÁ PROMOVENDO.

Não há como negar que a performance do ex-presidente nas pesquisas pré-eleitorais é impressionante. Lula é vítima de uma massacre midiático, que vem de muitos anos e se intensificou nos últimos tempos. Sofre uma perseguição por parte do aparelho repressivo de Estado que é a ilustração perfeita do lawfare. Não há boato que seja absurdo demais que não possa ser lançado contra ele e, na ausência de provas, sempre há uma grande convicção para condená-lo a qualquer coisa. Ainda assim, é o favorito para 2018. Uma demonstração de que AS POLÍTICAS INICIADAS EM SEU GOVERNO DE FATO BENEFICIARAM SIGNIFICATIVAMENTE OS MAIS POBRES - POR MAIS QUE TENHAM SIDO APENAS COMPENSATÓRIAS, ACOMODATÍCIAS, TÍMIDAS, INCAPAZES DE DESAFIAR A LÓGICA SOCIAL DOMINANTE E TODAS AS OUTRAS CRÍTICAS, MUITAS DELAS VÁLIDAS, QUE A ESQUERDA LHES DIRIGE.

A vitória eleitoral de Lula em 2018 é uma possibilidade palpável. Por isso, a direita não abandona a alternativa de torná-lo inelegível, talvez até de prendê-lo. Uma manobra que pode ter um custo alto; afinal, a condução coercitiva decretada pelo capataz Sérgio Moro, em 4 de março de 2016, foi, de todas as ações que antecederam ao golpe, a que gerou maior reação popular. MEXER COM LULA, AINDA MAIS QUANDO ELE DESPONTA COMO FORTE CANDIDATO À PRESIDÊNCIA, PODE SER O ESTOPIM PARA ACORDAR A RESISTÊNCIA QUE AINDA PERMANECE ADORMECIDA. Essa é também uma das razões do manifesto. Quanto mais a candidatura estiver posta, maior o custo de impedi-la.

MAS ESSA APOSTA NA VITÓRIA DE LULA REEDITA A IDEIA, QUE O GOLPE DE 2016 DEVERIA TER ENTERRADO, DE QUE A SOLUÇÃO PARA A CRISE POLÍTICA SE DÁ POR MEIO DA RECOMPOSIÇÃO DE UMA MAIORIA ELEITORAL DEMOCRÁTICA E PROGRESSISTA. Ora, a derrubada de Dilma mostrou exatamente a fragilidade das "regras do jogo". A MAIORIA ELEITORAL É IMPOTENTE SE NÃO ENCONTRAR, NA CAPACIDADE DE MOBILIZAÇÃO POPULAR, OS MEIOS PARA SE IMPOR.

Sob certo ponto de vista, A VITÓRIA DE LULA PODE SIGNIFICAR O DESFECHO PERFEITO PARA O GOLPE DE 2016. É verdade que o ex-metalúrgico é odiado, que muitos dos que foram às ruas de camiseta do CBF devotam a ele uma raiva insana, parte pelo que fez, parte pelo que simboliza. São pessoas que preferem ver Belzebu no Planalto a encarar Lula como presidente de novo. Mas, como diz um aforismo de autoria incerta, que circula pelas redes sociais, "A CLASSE DOMINANTE NÃO TEM ÓDIO. TEM ASTÚCIA. O ÓDIO ELA TERCEIRIZA."

O realismo político fez Lula aceitar limites muito estreitos para a transformação social no Brasil. O LULISMO é a consequência disso: UM PROJETO DESMOBILIZADOR, PARA NÃO ASSUSTAR A CLASSE DOMINANTE; INCLUSIVO, MAS NÃO IGUALITÁRIO, PARA NÃO AMEAÇAR OS PRIVILEGIADOS; VOLTADO A REDUZIR A POBREZA SEM TOCAR NA APROPRIAÇÃO PRIVADA DO FUNDO PÚBLICO. FOI UMA OPÇÃO DE MENOR ATRITO PARA FAZER FRENTE ÀS PREMÊNCIAS DA CONDIÇÃO DE VIDA DA MAIORIA DO POVO BRASILEIRO, UMA OPÇÃO QUE PARECEU EXITOSA, MAS QUE A DERRUBADA DE DILMA MOSTROU QUE ATINGIRA SEU EXTREMO. PARA NOSSAS ELITES, ATÉ UM POUQUINHO DE IGUALDADE JÁ É DEMAIS.

DESDE O GOLPE, LULA E O CAMPO MAJORITÁRIO DO PT TÊM EMITIDO SINAIS AMBÍGUOS PARA A RESISTÊNCIA POPULAR. SE SUA CANDIDATURA REPRESENTAR UM LULISMO 2.0, ISTO É, TURBINADO PARA SE ADAPTAR AOS LIMITES AINDA MAIS ESTREITOS QUE AS CLASSES DOMINANTES ESTÃO ESTABELECENDO PARA A EXPRESSÃO DO CONFLITO POLÍTICO, UMA NOVA PRESIDÊNCIA DE LULA SIGNIFICARÁ A NORMALIZAÇÃO DA NOVA ORDEM, MAIS PERFEITA DO QUE SERIA POSSÍVEL SOB QUALQUER POLÍTICO CONSERVADOR. Um presidente "de esquerda", mas acomodado a um cenário em que os direitos estão perdidos, a economia está mais desnacionalizada e a Constituição de 1988 foi transformada em escombros. E a luta popular novamente canalizada para as eleições, ainda que se saiba que seus resultados podem ser revistos quando interesses poderosos se unem.

Os coxinhas podem tremer de ira, mas para o capital um resultado destes estaria longe de ser ruim. É por isso que nunca é demais reiterar: NÃO PODEMOS REDUZIR A LUTA POLÍTICA À SUA DIMENSÃO ELEITORAL OU MESMO INSTITUCIONAL. NÃO SE TRATA DE IGNORAR AS ELEIÇÕES, MAS SIM DE NÃO VÊ-LAS COMO O OBJETIVO PRINCIPAL. A RESISTÊNCIA QUE VIER DAS RUAS HÁ DE SE ESPELHAR NAS URNAS – MAS O POLO DINÂMICO, QUE IMPRIME A DIREÇÃO, PRECISA ESTAR SEMPRE NAS RUAS.

Qualquer candidatura, para se credenciar a representante do campo popular, precisa incorporar esta percepção. O OBJETIVO NÃO PODE SER CONQUISTAR UM CARGO, POR MAIS PODEROSO QUE ELE POSSA PARECER, E SE ADAPTAR A SEU EXERCÍCIO NAS CONDIÇÕES HOJE ESTABELECIDAS, MESMO QUE COM A INTENÇÃO DE MINORAR AS AGRURAS DAS CLASSES POPULARES. O OBJETIVO É O DESFAZIMENTO DO GOLPE, O QUE REQUER O ENFRENTAMENTO ÀS CLARAS COM OS INTERESSES QUE O PRODUZIRAM. SE ISSO NÃO ESTIVER BEM NÍTIDO, ESTA CANDIDATURA SERÁ NOSSA ADVERSÁRIA. MESMO SE FOR A DE LULA.

(Artigo publicano originalmente no Blog do Demodê)

domingo, 5 de março de 2017

Facebook e o "admirável" mundo novo

Comentário: Zuckerberg querendo ser Mustapha Mond.

Do Portal da Carta Capital

Qual é o plano do Facebook para dominar o mundo?

por Antonio Luiz M. C. Costa publicado 05/03/2017

Seria de esperar, após a eleição de Donald Trump, alguma autocrítica por parte dos executivos do Facebook, mais eficiente das ferramentas para a difusão dos boatos e mensagens de ódio que contribuem para a ascensão da ultradireita no mundo.
Foram anunciadas em janeiro ideias sobre consultar agências especializadas na veracidade de notícias e restringir anúncios pagos em publicações de produtores contumazes de falsidades, até agora com poucos resultados práticos, mas faltava uma reflexão mais geral sobre o papel da rede.
Na quinta-feira 16, Mark Zuckerberg por fim a proporcionou – e o resultado é tão assustador quanto a própria ascensão da extrema-direita. Nesse manifesto de 6 mil palavras, “Construir a Comunidade Global”, exibe-se a pretensão não de aperfeiçoar um produto, mas de substituir os quatro poderes, mídia incluída, e ditar o destino do mundo. Alguns excertos:
“Nosso próximo foco será desenvolver infraestrutura social para a comunidade – para nos apoiar, para nos manter seguros, para nos informar, para o engajamento cívico e para a inclusão de todos. A história é a narrativa de como aprendemos a conviver em números cada vez maiores, de tribos a cidades e nações. Hoje estamos perto do próximo passo. O Facebook propõe-se a construir uma comunidade global. Questiona-se se podemos fazê-la funcionar para todos e se o caminho é conectar mais ou voltar para trás. Vozes temerosas pedem a construção de muralhas.
Nosso sucesso não se baseia apenas em se podemos capturar vídeos e compartilhá-los com amigos. É sobre se estamos construindo uma comunidade que ajude a nos manter seguros, que previna danos, ajude nas crises e na posterior reconstrução. Nenhuma nação pode resolver esses problemas sozinha.
Os atuais sistemas da humanidade são insuficientes. Esperei muito por organizações e iniciativas para construir ferramentas de saúde e segurança por meio da tecnologia e fiquei surpreso por quão pouco foi tentado. Há uma oportunidade real de construir uma infraestrutura de segurança global e direcionei o Facebook para investir mais recursos para atender a essa necessidade”.
O Facebook, conhecido em toda parte por se esquivar de impostos e de responsabilidades legais e morais, propõe-se a exercer em escala mundial funções típicas de um governo – se não também de uma igreja – e ainda monopolizar o acesso à informação. Se Zuckerberg tivesse anunciado abertamente a intenção de se candidatar à Presidência dos EUA, como chegou a se especular há algumas semanas, seria menos preocupante.
Ganhar bilhões com convencer as pessoas a desnudar a alma na internet e vender informações sobre elas a empresas e políticos já é ruim o suficiente. Enquanto Hillary Clinton conduziu uma campanha pela tevê difundida ao público geral, Trump baseou-se na rede social para direcionar anúncios a segmentos específicos e testar as reações a pequenas variações.
Propaganda anti-imigração, por exemplo, foi especialmente direcionada aos fãs de The Walking Dead após se constatar uma forte correlação entre xenofobia e o gosto pelo seriado e escondida de setores (latinos, por exemplo) que a consideravam antipática.
Com esse manifesto o Facebook propõe-se, porém, não apenas a catalogar identidades, opiniões, preferências, relações sociais e comunidades para lucro financeiro ou político de terceiros, mas a moldá-las e administrá-las conforme a visão da equipe de Zuckerberg, que não presta contas à democracia nem a ninguém, enquanto torna cada vez mais dependente dessa “infraestrutura” a busca de relacionamentos sociais, afetivos e profissionais e até o deslocamento no mundo real: uma viagem à Florida pode hoje depender da abertura de uma conta na rede social às autoridades dos EUA e estas ficarem satisfeitas com o que virem.
À luz dessa realidade, estes trechos soam ameaçadores: “Em campanhas recentes, dos EUA à Índia, passando pela Europa, vimos vencerem os candidatos com seguidores (no Facebook) mais numerosos e entusiasmados. Podemos estabelecer o diálogo e a prestação de contas diretamente com os líderes eleitos”. Conforme pergunta uma jornalista do Guardian, Carole Cadwalladr, como reagiríamos se Zuckerberg se chamasse Mikhail e sua empresa fosse sediada em Moscou?
Acrescente-se que, no Brasil, 55% pensam que o Facebook é a internet, assim como 58% na Índia, 61% na Indonésia e 65% na Nigéria, diz pesquisa da revista Quartz de fevereiro de 2015. A maioria dessas pessoas jamais pagará assinaturas físicas ou digitais de jornais e revistas e aceitará a informação como for apresentada na rede de Zuckerberg.
A possibilidade de descobrir outra coisa nem sequer existe para os mais de 40 milhões de usuários da internet.org, parceria de Zuckerberg com empresas de telecomunicações que oferece conexão grátis limitada ao Facebook e Wikipédia em vários países da América Latina, África e Ásia.
A seleção dessa informação tem sido baseada em grande parte em usuários dispostos a prestar serviços gratuitos como cobaias, editores e curadores. Os algoritmos sabidamente selecionam o que é apresentado em função de preferências anteriores, pois os usuários permanecem mais tempo ligados e clicam mais anúncios se não forem tirados de suas zonas de conforto.
Como também é notório, a exclusão de postagens e a suspensão ou expulsão de usuários baseiam-se em critérios ridículos, indiferentes a mentiras, mensagens de ódio e cenas de violência, impiedosos contra imagens de mamilos e nus artísticos e submissos a qualquer grupo organizado disposto a denunciar em massa quem postar mensagens – na maioria das vezes, feministas ou antirracistas – que lhes desagradem. Como será no futuro? 
Zuckerberg conta com inteligências artificiais capazes de assinalar postagens “ofensivas” e capacitar os usuários a fazer sua própria censura: “Onde está seu limite para nudez, violência, imagens chocantes e obscenidades? Você decidirá suas preferências pessoais. Para quem não tomar uma decisão, a configuração predefinida será da maioria das pessoas de sua região, como em um referendo”.
Quem morar em uma região conservadora, verá apenas mensagens selecionadas por critérios conservadores. Em tese poderá decidir por outros filtros, mas, se acaso conseguir decifrar o funcionamento dos opacos algoritmos da rede, seu inconformismo logo será óbvio para os demais usuários e as autoridades.
Ao menos caiu a máscara com a qual o Facebook se apresentava como uma plataforma neutra para mensagens de responsabilidade de terceiros. Admitiu uma agenda política com o objetivo de conformar o mundo ao seu gosto e a um ideal tecnocrático que, tanto quanto o autoritarismo racista de Trump e Le Pen, fede aos anos 1930 e neles foi satirizado por Aldous Huxley em Admirável Mundo Novo. Cabe a quem acredita na democracia desafiá-la e buscar os meios de tirar do monopólio privado os meios de ditar a opinião e o interesse público.