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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

O que é fundamental? O que é ser de esquerda no Brasil hoje?

Comentário: Esta reflexão de Elias Jabour é muito oportuna. As partes em destaque nos colocam objetivamente os caminhos pelos quais as eleições de 2014 poderão nos conduzir. A tarefa das mulheres e homens de esquerda desse país é a de pressionar o governo eleito pela gente para que ele sirva a um projeto de desenvolvimento e mudança do qual o Brasil realmente necessita. Temos que acumular forças pra deixar bem claro para Dilma que a aliança necessária é com o povo e com os movimentos sociais que representam o povo e não com grupos políticos que historicamente emperraram o processo democrático brasileiro. Resumindo, como vovó já dizia: "Não podemos jogar fora a água da bacia com a criança dentro".


O que é fundamental? O que é ser de esquerda no Brasil hoje?
Elias Jabbour *
* Doutor e Mestre em Geografia Humana pela FFLCH-USP. Do Conselho Editorial da Revista Princípios e membro do Comitê Central do PCdoB.

Uma das características do tempo presente está na dispersão de bandeiras e certo desaparelhamento dos movimentos sociais diante de pautas que estão se impondo. Resultado direto de duas décadas de retrocesso no campo das ideias, o momento é de refletirmos sobre o que é fundamental.

Os milhares de cartazes nas manifestações na metade do ano passado apenas demonstram o caractere da dispersão de pautas. A nossa incapacidade de prever com alguma antecedência o que estava por vir expressou falta de percepção do que estava ocorrendo em nosso país. Não se percebeu que o nível atingido na contradição entre forças produtivas x relações de produção estava (e está) em um ponto limite cuja onda de violência social e proliferação de cracolândias dizem muito mais do que algumas dezenas de teses acadêmicas são capazes (ou não).

Diante de um ano especial que terá auge nas eleições gerais de 2014, vem em mente a questão que não quer calar. O que é fundamental? Eleger Dilma é prioridade máxima. Não cabe a menor tergiversação sobre isso e as razões para este apoio encerram-se na própria história recente do Brasil. Eu, sob um prisma particular, não desejo – nem para o meu maior inimigo – um país governado por um projeto como o do PSDB. Prefiro um governo que aos trancos e barrancos mantém em pé alguma perspectiva de democracia, avanço social e desenvolvimento do que algo que a imprensa golpista se orgulhe: privatização, arrocho, alienação do bem público, ultraliberalismo na economia, cacete nos movimentos sociais, volta das ordens emitidas pelo FMI e retrocesso nas relações internacionais brasileiras.

Ao menos do jeito que as coisas estão, algum acúmulo estratégico de forças é garantido. E isso não é pouco diante do que pode vir. Isso é essencial, acumular forças. Eis aí outro ponto fundamental numa visão de acúmulo de forças, algo que só se dá partindo de uma visão estratégica do processo presente. E o que é estratégico? Estratégia é uma palavra completamente fora do dicionário do grande jogo político. Estratégia nacional é algo que se dilui em frente a campanhas eleitorais cuja base é o dinheiro privado e onde as coisas sempre corroboram a uma pauta mais curtoprazista (antiinflacionária) e onde o planejamento dos próximos passos está condicionado à “estabilidade monetária”. Neste aspecto o fundamental é persever e agudizar o debate de ideias de forma que barreiras ao pensamento progressista sejam transpostas e o conceito de desenvolvimento passe a ganhar corações e mentes na esquerda brasileira e em nossos movimentos sociais.

É muito comum a contraposição entre o desenvolvimento e a centralidade da questão social e democrática. Ainda convivemos com noções pobres sobre a questão do desenvolvimento, pois – para muitos – as atuais mazelas sociais que vivemos teve seu epicentro num modelo de desenvolvimento “concentrador de renda”. Nada mais falso, pois a presente questão social está mais relacionada com a semiestagnação das décadas de 1980 e 1980 do que com o “modelo” vitorioso em 1930 e brilhantemente encerrado no final da década de 1970.

É mais interessante historicizar do que ideologizar: o desenvolvimento é um processo que resolve e aprofunda contradições. Assim é mais justo falar em crise de superpopulação agrária transformada em crise urbana e no surgimento de uma indústria poupadora de mão-de-obra (departamento 1 novo, indústria mecânica pesada) nos fins dos anos de 1970. Numa situação histórica como a posta a solução não está em mais estabilização da moeda e sim em aprofundamento do desenvolvimento. E quem deve defender o desenvolvimento é quem historicamente luta por ele, ou seja, a esquerda nacional e consequente. Ou seja, nós.

Enfim, num quadro em que a perspectiva de retrocesso é imanente – seja pela derrota de nosso campo político, seja pela cedência às chantagens do capital financeiro nacional e internacional -, o que significa ser de esquerda? Não tenho dúvidas de que ser de esquerda reside numa postura ativa, não passiva, diante da história de nosso processo de desenvolvimento. Ser passivo diante de fatos é cômodo, reacionário e pequeno. Fazemos política em circunstâncias não escolhidas por nós. Fazemos política em um país cuja complexidade desafia os mais “atentos” analistas de nossa realidade. Somos frutos da decisão de independência tomada pelo neto de “Maria, a Louca”. Fruto de uma industrialização tocada adiante pelo latifúndio feudal e onde um operário e retirante nordestino abriu a porta para a revolução democrática. Não cabem simplismos de análise, nem lamentações diante do processo histórico de construção de nossa nação.

E construir uma nação significa construir uma imensa base material capaz de dar cabo aos anseios das mais amplas parcelas de nosso povo. E entre discutir como distribuir e como gerar renda existe uma sutileza que, independente da forma e estrategicamente, pode separar o que é progressista e reacionário. Ser de esquerda, assim, é uma questão – também – muito mais de conteúdo que de forma.

O fio da meada entre nós e eles está na defesa do desenvolvimento econômico acelerado como única forma de garantir conquistas dos últimos dez anos e mesmo de fazer jus à história brilhante de nosso país. O contrário pode redundar numa tacanha visão para quem a miséria poderá ser um acorde de aproximação do Brasil ao socialismo. Se for assim não seremos dignos de dirigir nosso país e muito menos dignos de ser algo que deveria ser o nosso principal motivo de orgulho: sermos filhos de um país chamado Brasil.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Racismo na Academia

Comentário: A praga do racismo está em todos os rincões da nossa sociedade! Semana passada assistimos às cenas vergonhosas de racismo contra o Tinga. Recebi hoje um e-mail do NEABI da UENF sobre o caso ocorrido com o Prof. Kabengele Munanga.

Leiam, é importante!!!

 Prof. Munanga

Racismo nas altas esferas, quem tem medo de um negro que sabe? Professor Kabengele Munanga quebra o silêncio acadêmico

por Marcos Romão
O Professor Kabengele Munanga foi preterido na seleção dos 59 estudiosos que foram beneficiados pela bolsa do programa "Professor Visitante Nacional Sênior " da Capes.

Kabengele havia aceito a sondagem da Professora Georgina Gonçalves dos Santos, para atuar na jovem Universidade do Recôncavo Baiano -UFRB-, através de uma possível bolsa de pesquisador visitante nacional sênior da CAPES. Kabengele foi preterido, foi desmeritado na alta esfera de decisão, na cúpula do poder que decide no Brasil, quem foi, é e será beneficiado por bolsas para aprender ou distribuir seus conhecimentos.

Segundo palavras do Professor José Jorge de Carvalho, Coordenador do INCTI, em seu documento em apoio à Kabengele para reivindicar a bolsa:

"Com toda sua clareza do intelectual militante e engajado e sua posição político-ideológica a respeito da inclusão dos negros e indígenas no ensino superior, docência e pesquisa, talvez Kabengele fosse o único estudioso negro ou um dos pouquíssimos pesquisadores negros a concorrer a essa bolsa. Por coincidência, esse único negro foi o menos qualificado, por comparação. Estranha e triste coincidência!"

Kabengele quebra o silêncio em uma área extremamente delicada que é área de financiamento da produção intelectual do conhecimento no Brasil. Poucos ou nenhum negro ou negra brasileira, pode se arriscar ou se arriscou na área acadêmica, à questionar o possível racismo que nós da Mamapress, consideramos estar entranhado no meio acadêmico brasileiro, racismo que se tornaria visível, diante de qualquer pesquisa séria feita por qualquer aprendiz de Ciências Sociais. O endocolonialismo ou sub-colonialismo interno consegue no Brasil ser mais branco e europeu do que os europeus desejaram na década de 30, e hoje, graças as deuses africanos, esqueceram e mudaram.

Ao contrário da falácia que o negro precisa estudar para ter o seu lugar na sociedade, nós da Mamapress afirmamos, quanto mais o negro souber, em qualquer área, mais ele será uma ameaça e mais ele será discriminado.

Tomamos a liberdade de publicar a Carta Aberta do Professor Kabengele Munanga:

CARTA ABERTA DO PROFESSOR KABENGELE MUNANGA

Permitam-me, primeiramente, quebrar meu silêncio, começando por desejar-lhes um feliz 2014, repleto de sucessos e realizações.

Agradeço a solidariedade e o pronto recurso feito por vocês junto à CAPES através da Reitoria da UFRB diante da omissão do meu nome entre os 59 estudiosos beneficiados pela bolsa do programa "Professor Visitante Nacional Sênior (cfr. Edital 28 de 2013)".

Geralmente, levo tempo para me manifestar em situações aparentemente urgentes como essa que acabamos de viver. Isto é uma das minhas características que, acredito, se não for uma qualidade, é um defeito incorrigível, pois faz parte da minha pequena natureza humana. Creio, agora, que já tive bastante tempo para refletir sobre o acontecido.

Relembrando como todo começou, estava eu na véspera da minha aposentadoria compulsória na USP que aconteceu em novembro de 2012, quando a colega e amiga Professora Georgina Gonçalves dos Santos, me sondou sobre a possibilidade de ser convidado da UFRB através da bolsa de pesquisador visitante nacional sênior da CAPES. Sem hesitação, aceitei imediatamente e desde então comecei a recusar outros convites que me foram dirigidos depois. Tinha e tenho a convicção de que poderia ser mais útil para uma nova universidade como UFRB do que para as universidades mais velhas que possuem um quadro de pesquisadores e docentes mais estruturado.

Elaborei então uma proposta do programa de atividades a serem desenvolvidas, de acordo com as instruções contidas no Edital 28 do PVNS, proposta esta que foi enriquecida e consolidada pelas sugestões dos colegas Osmundo Pinho e Georgina Gonçalves dos Santos e em última instância pela própria Pró-Reitora de Pesquisa e Pós-Graduação da UFRB, a Professora Ana Cristina Firmino Soares.

Acreditávamos que essa proposta era exequível, de acordo com a demanda do CAHL da UFRB e da minha experiência acumulada durante 43 anos como pesquisador e docente. Uma experiência começada em 1969, na então Universidade Nacional do Zaire, onde fui o primeiro antropólogo formado, passando pela Universidade Católica de Louvain (Bélgica) e pelo Museu real da África Central em Tervuren (Bruxelas), Universidade Cândido Mendes, Rio de Janeiro (visitante), Escola de Sociologia e Política de São Paulo, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Universidade de São Paulo (1980-2012), Universidade Eduardo Mondlane, Maputo, Moçambique (visitante) e Universidade de Montreal, Canadá, como Professor associado convidado para orientação de teses (2005-2010). Sem deixar de lado os cargos de direção na USP, como Diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia (1983-1989), Vice-Diretor do Museu de Arte Contemporânea (2000-2004), Diretor do Centro de Estudos Africanos (2006-2010) e participação em diversos conselhos, como o Conselho Universitário da USP etc. Orientei dezenas de teses e dissertações, entre as quais algumas premiadas como a tese de José Luís Cabaço, que ganhou Prêmio da ANPOCS, e recentemente a tese de Pedro Jaime Coelho Jr., que ganhou prêmio de melhor tese em Ciências Humanas, destaque USP 2013.

Modéstia à parte, sem "me achar" e sem exibição, pensava que com toda essa experiência poderia servir para uma nova universidade em construção como a UFRB. Lamento que o sonho não deu certo!

Pelo parecer da Comissão Julgadora (Edital 28- 2013), nosso programa foi deferido e recomendado à bolsa com certo elogio, classificando-me na Categoria I dos pesquisadores do CNPQ. Foi, se entendi bem, na última instância que fomos preteridos, em comparação com os demais deferidos. Em outros termos, tenhamos a coragem de aceitá-lo, nosso programa e meu CV foram considerados inferiores para sermos incluídos entre os 59 bolsistas aprovados.

Por que então tantas lamentações, pois não somos os primeiros, nem os últimos a serem preteridos? Os recursos perpetrados junto à CAPES por outras universidades mostram que outros e outras colegas não contemplado/as pela bolsa não são menos qualificado/as que Kabengele. No entanto, vale a pena, apesar da consciência, divagar um pouco sobre os critérios de comparação, pois foi por ela que fomos eliminados. Pois bem, é possível comparar propostas diferentes sem antes estabelecer entre elas um denominador comum? Qual foi esse denominador? As regras do jogo de comparação não parecem claramente definidas; a subjetividade e a objetividade dos julgadores parecem se misturar. Claro, não há nenhum demérito aos colegas cujos projetos foram beneficiados pelas 59 bolsas atribuídas. Os especialistas da Física Quântica não têm dúvida sobre a subjetividade do observador pesquisador no momento em que ele começa a interpretar cientificamente os fenômenos da natureza por ele observados.

Na esteira do raciocínio do Professor José Jorge de Carvalho, Coordenador do INCTI, em seu documento em apoio a mim para reivindicar a bolsa, com toda sua clareza do intelectual militante e engajado e sua posição políco-ideológica a respeito da inclusão dos negros e indígenas no ensino superior, docência e pesquisa, talvez eu fosse o único estudioso negro ou um dos pouquíssimos pesquisadores negros a concorrer a essa bolsa. Por coincidência, esse único negro foi o menos qualificado, por comparação. Estranha e triste coincidência!

Minha consideração especulativa poderia ser enquadrada no chamado discurso da vitimização, o que pouco me importa, pois já estamos acostumados. No entanto, os que detêm o poder de nomear os outros, ou seja, de nos nomear, são os mesmos que nos julgam, pois fazem parte do binômio saber/poder muito bem caracterizada na visão foucaultiana (Ver Michel Foucault). Neste sentido, os argumentos aparentemente científicos escondem uma relação de poder e autoridade difícil de transformar. Por isso, eu nutri certo sentimento de pessimismo que me faz acreditar que o recurso da UFRB e o apoio dos colegas não surtirão efeito de reversão da decisão da CAPES, no sentido de dar outra bolsa além das 59 concedidas. Ou seja, o recurso da UFRB e o documento de apoio do Professor José Jorge de Carvalho, coordenador do INCTI, assinado por demais colegas têm menos probabilidade de ser atendida positivamente.

Por isso, sem esperar o fechamento esperado, sinto-me no momento na simples obrigação moral de agradecer o recurso da UFRB e o apoio de vários colegas encabeçado pelo amigo e companheiro de luta, o Professor José Jorge de Carvalho. Estarei sempre disposto a colaborar com a UFRB, através de convite para participar dos seminários, proferir conferência e palestras, participar de comissões julgadoras de mestrado etc., como já o venho fazendo.

Meu muito obrigado,

Kabengele Munanga

Histórico da situação explicada em carta de solidariedade do historiador Jacques Depelchin:

O Professor Kabengele Munanga FOI EXCLUÍDO de uma seleção para professor visitante da UFRB ( Universidade Federal do Recôncavo da Bahia).

Por que tanto medo do Professor Kabengele Munanga? Por que tanta raiva contra alguém que contribuiu tanto na partilha dos seus saberes? Para as pessoas pouco informadas, o Professor Kabengele Munanga se destacou na sua carreira acadêmica na USP.

Em fins de 2013 se aposentou e aceitou o convite para lecionar como Prof. Visitante Sênior na jovem universidade federal do Recôncavo da Bahia(UFRB) Baiano -UFRB. Para isso, se candidatou para uma bolsa da CAPES, Edital 28 de 2013, na Categoria de PVNS Apesar de um parecer favorável e elogioso recomendando a outorga da Bolsa pleiteada, a sua candidatura foi rejeitada, levando a um protesto de vários acadêmicos, incluindo professores da UFRB. Numa carta aberta, agradecendo este ato de solidariedade, o Professor Kabengele Munanga explica historiando o processo em que se deu o que lhe aconteceu.

Aqui, gostaria de levantar uma pergunta: alguém teria medo do Professor Kabengele Munanga e de onde viria? A necessidade de refletir sobre isso é urgente, não só para os Afro-Brasileiros, mas também para todos os Brasileiros que entendem e agem como membros duma só humanidade, pois o contexto global em que vivemos hoje, exige, com urgência, essa afirmação.

No seu livro Pele Negra, mascaras brancas, Frantz Fanon discute esta questão do medo (pp. 125-6, Edufba, Salvador 2008), focando sobre aspetos bem conhecidos pelos sobreviventes dos legados acumulados da escravidão atlântica e da colonização. Infelizmente, o próprio Fanon não entra na discussão sobre como ele superou o medo.

O medo dos adversários do Prof Kabengele Munanga é o produto, indireto, da serenidade e da franqueza com que ele tem abordado assuntos incomodantes da sociedade Brasileira, em volta das raízes do racismo, das sugestões sobre como solucionar as injustiças cumulativas herdadas dessas violências contra as partes discriminadas da humanidade.

Esse medo, quer da vitima, quer de quem tem medo da resistência das vitimas, nunca é de bom conselho. O medo dos gerentes dum sistema prisional tem uma explicação, mas, como é, sobretudo visceral, a explicação a partir da razão não se aplica. Porque, como sempre aconteceu em outros casos históricos, os administradores do sistema não são preparados para enfrentar quem deveria se submeter à suas ordens, mas que, em vez, se levanta e argumenta a partir da sua consciência e com eloqüência e sabedoria uma saída honrosa para todos. Para os gerentes dum sistema injusto, as vitimas tem que se calar. Ir na contra mão dessa ordem informal é geralmente caracterizado de "impertinência" e, por isso, tem que ser punido.

Os administradores/gerentes dum legado histórico profundamente injusto tem dificuldades em parabenizar o Professor Kabengele Munanga decidir, no fim da sua careira, na pratica, dar uma lição de como corrigir as conseqüências, no nível do ensino superior, duma injustiça sistêmica contra as descendentes e os descendentes da escravidão.

Não é difícil imaginar o que se passa na mente dos adversários do Professor Kabengele Munanga. Na peça de teatro Et les chiens se taisaient, Aimé Césaire ilustrou como o rebelde escravo enfrentou o dono, no próprio quarto dele. O que aconteceu ao Professor Kabengele Munanga pode ser lido como a continuação do comportamento típico dos dominantes quando enfrentam um caso de rebeldia contra injustiça: o rebelde tem que ser punido, na medida do possível, duma maneira exemplar (leia severamente) para que outros rebeldes potenciais não sejam encorajados em imitá-lo. Historicamente, os exemplos individuais e coletivos abundam: Kimpa Vita, Zumbi, Geronimo, Abdias Nascimento, Toussaint-l'Ouverture, Cuba, Haiti, Patrice Lumumba, Amilcar Cabral, Salvador Allende, Cheikh Anta Diop, Nelson Mandela, Samora Machel, Thomas Sankara, Steve Biko, Chris Hani, Aristide, para não mencionar mais.

O Professor Kabengele Munanga, de origem Congolesa, nação de Kimpa Vita, Patrice Lumumba e outras e outros, na mente dos seus adversários, por definição, não tem direito à palavra, muito menos quando a sua fala/escrita acaba dando uma lição contundente de como superar legados históricos seculares, no Nordeste Brasileiro, para que qualquer Brasileir@ possa pensar, sonhar, e conseguir ser uma estrela, um craque intelectual.

Desde já, agradecemos a coragem do Professor Kabengele Munanga por ter continuado trilhando os caminhos das benzedeiras e dos benzedeiros sobre os quais o grande autor Ghaneense, Ayi Kwei Armah escreveu com tanta eloquencia no seu livro de ficção The Healers.

Em solidariedade,
Jacques Depelchin
Historiador
Salvador-Bahia


sábado, 8 de fevereiro de 2014

Stédile sobre a Copa do Mundo no Brasil

Comentário: Stédile falou tudo sobre a Copa do Mundo os R$ 8 bi é igual a duas semanas de juros pagas à banqueiros. Ficar protestando apenas contra estádios é não enxergar além da cortina de fumaça, é preciso ir à raiz do problema.
Isso é o que queremos também!

Líder do MST considera 'erro político' fazer mobilização durante a Copa
Para Stédile, protestos são justos e vão continuar, mas a competição faz parte da cultura brasileira e é 'bobeira politizar certos períodos'
por Vitor Nuzzi, da RBA publicado 06/02/2014 18:48
"Aqueles problemas estruturais estão latentes, e a juventude vai voltar a se manifestar", diz líder
São Paulo – Um dos coordenadores nacionais do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Pedro Stédile afirma não ser contra a Copa do Mundo no Brasil, por mais razão que tenham os protestos contra os gastos para a organização do torneio e pela presença da Federação Internacional de Futebol (Fifa). "Acho que é um erro político colocar todos os erros (do país) na reforma dos estádios. Oito bilhões (de reais) representam duas semanas de juros que o país paga para os bancos." A estimativa oficial mais recente dá conta que o valor com obras em estádio chegará a R$ 8,9 bilhões.
Para ele, é importante fazer mobilizações o quanto antes. O pior momento seria justamente durante a competição, que vai de 12 de junho a 13 de julho. "O povo quer ver a Copa do Mundo. A Copa faz parte da nossa cultura, e acho que seria um erro da moçada achar que isso (protestos) vai granjear apoio popular."
Mas, segundo Stédile, não significa que é um momento de trégua. "Acho que Copa é que nem carnaval. Alguém vai marcar mobilização durante o carnaval? É besteira politizar certos períodos", afirma.

Ao mesmo tempo, o coordenador do MST lembra que a entidade integra uma plenária com mais de 100 entidades. "Aqueles problemas estruturais (moradia, transporte, educação) estão latentes, e a juventude vai voltar a se manifestar. A juventude é um termômetro, é como se ela medisse a febre antes dos outros. Mas ela não tem um programa de mudanças. Quem tem de apresentar esse programa são os movimentos sociais organizados." Ele lembrou que as centrais sindicais já organizam uma manifestação para 9 de abril.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Stédile o "pescador de ilusões" tece críticas ao governo Dilma

Comentário:  Debates como esses que João Pedro Stédile faz com muita propriedade estão muito raros nos dias de hoje. Há uma bipolarização, os que atacam de uma forma raivosa as ações do governo e aqueles que o defendem muitas vezes de forma hidrofóbica. Isso é muito complicado pois só se critica a aparência e não se vai na raiz do problema. Nessas horas faz falta a terceira margem do rio como diria Guimarães Rosa. Aos incautos, terceira margem do rio não quer dizer terceira via e nem tampouco alguma coisa acinzentada ou alaranjada. A parada  é vermelha ou branca, como já nos ensinaram nossos camaradas soviéticos. Essa terceira margem do rio, seria adonde os pescadores que enxergam além da neblina possam lançar suas linhas, tecer suas críticas. Afinal a crítica também edifica, e como edifica. Pessoas forjadas na crítica e auto-crítica são seres humanos melhores.


Dilma está alinhada às oligarquias, critica João Pedro Stedile

3/2/2014 12:16
Por Redação - de Porto Alegre


João Pedro Stedile é um dos principais líderes do MST
Um dos principais líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João PedroStedile avalia os governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff sob a perspectiva da luta do homem no campo pela reforma agrária e contra o agronegócio e, deste ponto de vista, Stedile questiona o fato de a reforma agrária não ter apresentado resultados significativos na atual gestão. Segundo o líder sem-terra, a reforma agrária só não tem avanços porque a presidenta está “alinhada com as oligarquias”.
Em entrevista publicada na edição desta segunda-feira do diário gaúcho Jornal do Comércio, com a assinatura do jornalista Jimmy Azevedo, João Pedro Stedile não poupou críticas aos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e de Dilma Rousseff, ambos do PT. O líder nacional do MST critica a política do atual governo em promover concessões de setores estratégicos. Sobre a política econômica do governo de coalizão, acredita que é necessário realizar mudanças, barrar o superávit primário e destinar os R$ 280 bilhões anuais, hoje pagos em juros aos bancos, para educação, saúde, reforma agrária e transporte público. Reitera que, para que haja essas mudanças estruturais, será necessário primeiro promover uma reforma política para que o poder seja exercido pelo povo, “e não contra ele”.
O MST foi criado em um encontro de camponeses em Cascavel, no Paraná, no dia 22 de janeiro de 1984. Em três décadas de mobilização pela reforma agrária, seus integrantes realizaram mais de 2,5 mil ocupações. O movimento tem 2 mil escolas instaladas em assentamentos.
Leia, agora, os principais trechos da entrevista de João Pedro Stedile.
– Quais são os desafios dos movimentos sociais?
– Primeiro, é não desanimar diante da avalanche do grande capital que está dominando toda agricultura. Ir construindo pequenas e médias agroindústrias na forma cooperativa. Adotar a agroecologia como matriz de produção e priorizar a produção de alimentos sadios. Resistir. Logo aí, as contradições do modelo do agronegócio vão gerar uma crise tremenda, pois ele é predador da natureza, só produz alimentos contaminados pelo alto uso de venenos e vai despovoando o interior, com mais desemprego.
– O senhor disse que o modelo de luta pela reforma agrária deve ser reformulado. Quais seriam as alternativas?
– Durante todo século XX, os movimentos camponeses lutaram por terra e os governos que representavam os interesses da burguesia industrial aplicaram programas de reforma agrária clássica, que eliminava o latifúndio e democratizava a propriedade da terra para desenvolver o mercado interno. Agora, é o capital financeiro e as empresas transnacionais que hegemonizam o capitalismo, e a eles não interessa mercado interno, nem democratizar o acesso a terra. Então, nós, dos movimentos camponeses, precisamos avançar para um programa de reforma agrária popular, que interesse a todo o povo, centrado na distribuição de terras, na produção de alimentos sadios, sem venenos, no uso da agroecologia e na democratização da educação e das agroindústrias.
– Levantamentos revelam que o Brasil importou mais de US$ 2 bilhões em agrotóxicos no ano de 2012. Como o senhor avalia essa situação?
– O governo Dilma é refém do agronegócio e da falácia de que as exportações agrícolas são necessárias. Nenhum país do mundo se desenvolveu vendendo matérias primas. Olha, somos o maior exportador mundial de couro cru e os maiores importadores de tênis da China. Isso é uma vergonha. Somos o maior exportador de minério de ferro, sem pagar nada de imposto, e depois compramos até trilho de trem, ferro elétrico, e ventilador da China. Vendemos soja em grão e depois importamos leite em pó. E esse modelo anacrônico, até do ponto de vista agronômico, transformou a agricultura em refém dos venenos. Somos o maior consumidor mundial de venenos, 20% de todos os venenos do mundo, sem nenhuma necessidade agronômica. Nós estamos aplicando em media 15 litros de venenos por hectare por ano, e consumimos cinco litros por habitante ano. E ele mata a biodiversidade, mata os rios, a água subterrânea, contamina o ar, a chuva, e fica nos alimentos, para depois virar câncer. Esse é o preço que o povo esta pagando pela falácia do agronegócio.
– Por que o senhor diz que o governo Dilma Rousseff tem um desempenho ruim na reforma agrária?
– Porque é um governo de composição, de coalizão de todas as classes, em que o agronegócio tem hegemonia e os setores favoráveis à reforma agrária são minoritários. Somado a isso, há o contexto da agricultura dominada pelo capital financeiro e pelas empresas transnacionais. E é um Estado dominado pela burguesia, que tem controle absoluto do poder Judiciário e do Congresso para se proteger contra qualquer mudança.
– O MST, em particular nos governos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), foi um dos movimentos sociais que mais realizaram mobilizações. Como está isso hoje?
– Na época do neoliberalismo, dos governos Collor-FHC, os movimentos sociais resistiram no campo e lutaram muito. Até porque o movimento sindical e a classe trabalhadora urbana haviam sido derrotados econômica e ideologicamente. Então, a imprensa burguesa como reprodutora de sua ideologia nos atacava permanentemente para evitar que crescessemos. Hoje, o papel da imprensa burguesa é esconder as lutas sociais ou difundir como sinônimo apenas de “baderna”, para abrir caminho para a repressão judicial e policial.
– Por que o senhor tem dito que os governos Lula e Dilma não fizeram a ruptura com o capital financeiro?
– Primeiro, porque nunca se propuseram a isso, uma ruptura com as oligarquias. Segundo, porque diante de uma correlação de forças adversas para a classe trabalhadora em todo mundo e a hegemonia do capital financeiro, escolheram o caminho de chegar ao governo em aliança com setores da burguesia. E disso se gerou um pacto: “vocês podem governar, fazer políticas de distribuição de renda, mas não podem mexer nas estruturas iníquas do capital e do Estado”. Isto é, formaram um governo de aliança de classes. Todos ganham um pouco, mas o capital financeiro é o que mais ganha. E cabe a ele financiar as campanhas dos deputados, dos governantes, encontros do poder Judiciário…
– Como o senhor analisa as concessões que estão sendo promovidas pela presidente Dilma?
– O governo Lula barrou as privatizações. Já o governo Dilma usa um sofisma: em vez de privatização, concessão. Na minha opinião, uma vergonha. O Estado brasileiro deve manter controle dos setores estratégicos da economia, da energia, dos transportes, das comunicações, para garantir que os interesses do povo estejam acima de qualquer coisa. Com as concessões e privatizações, o lucro das empresas está em primeiro lugar. Por isso, a energia elétrica no Brasil é a mais cara do mundo. Os pedágios, a internet e os celulares são os mais caros do mundo. Isso aqui virou um paraíso para o capital internacional, como diria o saudoso Brizola.
– Na sua opinião, por que o assunto reforma agrária esteve ausente da pauta das manifestações populares ocorridas em junho do ano passado?
– O que tivemos em junho e julho foram mobilizações da juventude urbana pedindo mudanças. E se mobilizou como indignação e protesto. Não por um programa de mudanças. Quem pode se mobilizar com programa de mudanças são os setores organizados da classe trabalhadora, que ainda infelizmente estão meio parados. Porém, as mobilizações da juventude são importantes e necessárias, pois são uma espécie de termômetro da saúde da sociedade. A juventude é a primeira que sente a febre e vai para a rua. Depois virão a classe trabalhadora e os demais setores. É urgente construirmos um programa de mudanças articulado pelos movimentos populares e partidos de esquerda.
– Um dos assuntos mais criticados pelos manifestantes foram os gastos com a Copa do Mundo. Qual é a sua opinião sobre esse tema?
– O governo gastou, através de diversas formas, ao redor de R$ 8 bilhões. A imprensa burguesa, porta-voz da oposição partidária, fez disso uma bandeira para tentar desgastar o governo. Mas, cá entre nós, esse volume representa apenas duas semanas dos juros pagos pelo Tesouro Nacional aos bancos. E ninguém diz nada. Claro que poderiam ser aplicados melhor, em educação e hospital. Nosso inimigo principal não são os estádios e a Copa, que vai passar logo. Nosso inimigo são os bancos, o capital financeiro. E sobre eles a imprensa não diz nada. O próprio (Joseph) Stiglitz, Prêmio Nobel de Economia, defendeu que a única saída para salvar o capitalismo, se se quisesse, seria estatizar os bancos.
– A ideia de se realizar reforma agrária no Brasil, proposta pelo então presidente João Goulart (Jango), foi um fator determinante para o golpe de 1964. No Chile, da mesma forma, com Salvador Allende. Por que esse tema é um tabu?
– Porque a base do poder político em todos os países periféricos e subalternos ainda está no poder econômico da propriedade da terra. Todos os países hoje industrializados fizeram reforma agrária para democratizar a terra e gerar um amplo mercado interno. Mas aqui a burguesia prefere vender pouco e ganhar muito, em vez de vender muito e ganhar mais. Por isso temos uma sociedade, a cada dia, cada vez mais desigual. O Brasil é um dos países de maior desigualdade social do mundo. E um dia isso vai estourar.
– O MST ficou submisso aos governos do PT, como criticam alguns?
– O MST adota como um princípio a autonomia em relação aos governos, Estado, partidos e igrejas. Aplicamos isso durante todos os 30 anos de existência. E fazemos isso também com os governos Lula-Dilma. Nossa prática de movimento social é pressionar e negociar. Pau e prosa. No ano passado, ocupamos os ministérios de Minas e Energia, da Fazenda, da Agricultura, nenhum outro movimento social fez isso, e não consta que o governo federal tenha gostado.
– Como o senhor acompanhou, em 2011, a mobilização de um grupo de mais de 50 integrantes que deixaram o MST por acharem que a direção do movimento estava submissa ao governo?
– Do MST, eram apenas 17, os demais eram de outros movimentos. A crítica do documento deles é ideológica e se referia a todos os movimentos populares e partidos. Infelizmente, não entenderam que em um movimento de massa cabem todas as opiniões. Não me consta que sua saída e seu agrupamento representou algum avanço para a classe trabalhadora ou alguma ameaça aos governos e à burguesia. Faz parte da vida, e todo mundo tem a liberdade de defender suas ideias.
João Pedro Stedile é, nas últimas décadas, a maior liderança do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Um dos fundadores do MST, o ativista brasileiro também integra a Via Campesina. É graduado em Economia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs) e pós-graduado pela Universidade Nacional Autônoma do México. Filho de pequenos agricultores da província italiana de Trento, nasceu em 1953 na cidade gaúcha de Lagoa Vermelha. Marxista de formação, Stedile, desde 1979, participa das atividades de luta pela reforma agrária no País. Atuou como membro da Comissão de Produtores de Uva, dos Sindicatos dos Trabalhadores Rurais do Rio Grande do Sul, na região de Bento Gonçalves. Já assessorou a Comissão Pastoral da Terra (CPT), no Rio Grande do Sul e em âmbito nacional, além de ter trabalhado na Secretaria da Agricultura do Rio Grande do Sul. Por indicação do então deputado federal Brizola Neto (PDT-RJ), recebeu a medalha Mérito Legislativo, concedida a personalidades brasileiras ou estrangeiras que realizaram ou realizam serviço de relevância para a sociedade.