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quinta-feira, 27 de junho de 2013

Uma reflexão sobre as mobilizações em Itaperuna

Comentário: Essa foi uma reflexão que fiz endereçada principalmente aos meus alunos do IFF que são a vanguarda do movimento que exige melhorias em nossa cidade.



Gostaria de compartilhar com vocês uma reflexão. Tenho assistido às úlltimas manifestações que ocorrem em nosso país nos últimos dias. Estive atarefado com a qualificação do meu doutorado até a última sexta-feira, mas nesse tempo li alguma coisa e conversei com alguns camaradas. É muito importante que Itaperuna entre no mapa das manifestações e fico muito satisfeito de ver a grande mobilização que os alunos do IFF Itaperuna estão realizando. A nossa escola não forma apenas técnicos, mas também cidadãos conscientes de seus direitos e deveres e é principalmente pra eles que são a vanguarda desse movimento que dedico essas linhas. É um pouco grande esse texto mas peço que leiam.


A verdadeira democracia se faz com o povo na rua. Desde sempre o povo brasileiro lutou por seus direitos e ao contrário do que alguns gostam de dizer somos um povo batalhador e guerreiro. Posso falar um pouco da grande batalha que a minha geração travou contra o neoliberalismo representado no Brasil pela corja entreguista FHC-Serra-Aécio Neves na década de 1990. Me lembro que naqueles tempos enfrentamos as bombas de gás lacromogênio e a cavalaria e isso acontecia não porque depredávamos (como muita gente mal intencionada infiltrada no movimento faz nesses dias) o patrimônio público, mas sim por que estávamos defendendo a Universidade Pública, a Vale do Rio Doce, a Telebrás e todo o patrimônio construído pelo povo brasileiro com suór, sangue e lágrimas ao longo de décadas e que foi entregue de bandeja pelos tucanos ao capital internacional. Felizmente devido às nossas mobilizações a Petrobrás não foi privatizada e nem as universidades e as escolas técnicas federais. Naquelas ocasiões o PIG (Partido da Imprensa Golpista) representado pelas organizações Globo, Folha de São Paulo e Estadão não colocavam a música “Caminhando contra o vento” de fundo musical das imagens de nossas manifestações e o máximo de repercussão que davam às nossas mobilizações eram notinhas de canto de página. Esses eram tempos tenebrosos.
Devido à essas grandes mobilizações o aparato neoliberal representado pelos tucanos foi derrotado nas urnas em 2002 com a eleição do presidente Lula. Nesses 10 anos o povo brasileiro teve grandes conquistas, mas ainda existem léguas para se percorrer até atingirmos o país que queremos. A minha grande crítica ao governo Lula/Dilma foi não ter contado mais com a força das ruas para promover as grandes reformas que o nosso país necessita, optando na maioria das vezes pelos acordos com setores que não representam o povo. Sou um enxadrista amador, e acredito que a principal peça do tabuleiro democrático é o povo na rua fazendo ecoar sua voz em todos os cantos e não as jogadas feitas nos acordos de gabinete. Mas não se pode jogar a água da bacia fora com a criança dentro. Temos que ir às ruas pra deixar bem claro para a presidenta Dilma que ela pode contar conosco para implementar as mudanças que a gente quer e que ela não precisa ceder ao PIG (Globo, Folha, Estadão, etc) e nem tampouco aos setores da elite instalados no governo. O recado que temos que dar à Dilma é o seguinte: QUEREMOS QUE O GOVERNO ELEITO PELO POVO, SEJA CADA VEZ MAIS DO POVO E PARA O POVO. Dilma não teme o povo e nem deve temer. Quem tem medo do povo é a elite venal deste país, os representantes dos interesses da elite nos poderes judiciário, legislativo e executivo de nossos estados e municípios e os fascistas que muitas vezes estão usando máscaras mas que representam as forças mais retrógradas com seu discurso anti-partidos e sindicatos. Espero que amanhã haja muitos cartazes denunciando o descaso das autoridades municipais com a cidade de Itaperuna e menos contra o governo democraticamente eleito da presidenta Dilma. Aliás é muito bom deixar claro que Itaperuna apesar de votar majoritariamente nos candidatos da direita tucana tem recebido grandes investimentos do governo federal, isso é um fato. Para citar dois exemplos de investimentos do governo federal no período Lula/Dilma destaco a construção de um Campus do Instituto Federal Fluminense (no qual tenho a honra de ser professor) e a UPA (Unidade de Pronto Atendimento). Isso é investimento em saúde e educação na cidade. Investimento do dinheiro do povo brasileiro por meio do governo federal. Em relação ao IFF é bom lembrar que o seu papel é ofertar oportunidades de formação para a juventude e pros trabalhadores da região noroeste fluminense. A UPA é uma instituição pública que deve promover a saúde da população, que na nossa região tem uma forte presença da iniciativa privada.
Na manifestação que teremos amanhã (24/06) em Itaperuna seria muito interessante que um dos cartazes levantados fosse a cobrança da conclusão das obras de drenagem e esgotamento do bairro Vinhosa. Esta obra está prometida desde março de 2011. O último prefeito cavou um monte de buracos na cidade (vide a Rua Buarque de Nazareth) na véspera da eleição do ano passado. O prefeito atual tapou os buracos e maquiou as ruas e avenidas da cidade para a Festa de Maio. E aí vem a pergunta cadê os 10 milhões de reais da obra???
Um outro cartaz que gostaria de ver na rua e que se puder irei pintar é denunciando a indústria da enchente em Itaperuna. Isso mesmo, da mesma forma que no nordeste existe a indústria da seca que troca votos por água, aqui em Itaperuna existe a indústria da enchente em que muitos vereadores, deputados e prefeitos são eleitos devido à “solidariedade” que prestam nos períodos de tragédia. Esse pessoal fica aí posando de bons samaritanos, ocupando as cadeiras no legislativo municipal, estadual, federal, gostando quando chove mais do que devia e não movem uma palha para resolver os problemas de infra-estrutura na nossa cidade. Vamos pra rua pra denunciar esses sanguessugas. Vamos pra rua para exigir obras de infra-estrutura que acabe de vez com o flagelo das enchentes na nossa cidade.
Um outro cartaz deveria pedir mais cultura e lazer pra nossa juventude e pro nosso povo. Quais as opções de lazer que temos nessa cidade? Quantas praças públicas existem no nosso município?
Um outro cartaz que sugeriria é aquele que pede um transporte coletivo de qualidade e ônibus aos sábados e domingos. Já tentaram andar de ônibus nos finais de semana. Transporte Coletivo é um serviço público concedido a uma empresa. Infelizmente essas empresas financiam as campanhas de muitos postulantes à cargos no executivo e legislativo municipal dando um cala boca naqueles que são eleitos. Aliás vamos protestar pedindo o financiamento público de campanha para que os interesses privados deixem de dar a tônica na nossa política.
Claro não podem faltar cartazes pedindo o Passe-Livre. Esse é um direito fundamental dos estudantes não só para irem à escola mas também para participarem de atividades culturais, esportivas e de lazer.
Eu queria ser um octopus para segurar muitos cartazes nessa manifestação, ideias e temas para os cartazes não faltam pois são muitas as reivindicações da nossa sociedade.
Mas uma coisa não pode faltar na manifestação amanhã além da irreverência, alegria e contestação da juventude: a paz. A manifestação deve ser pacífica, sabem por quê? Por que os inimigos da juventude e do povo irão soltar rojões se for feito algum dano ao patrimônio público ou privado. Isso é o que eles querem para nos chamar de vândalos, mas nós não somos vândalos! Portanto, amanhã na manifestação é fundamental que se fique atento a qualquer indivíduo mais esquentadinho pois esse cara pode ser um provocador infiltrado no movimento. Ele pode ser um agente pago pra tumultuar. Se algum indivíduo desses estiver no meio da manifestação é necessário que ele seja isolado e apontado como um vândalo sobre o qual devem atuar as forças de segurança pública.
Às ruas, à luta, pela Itaperuna que queremos, por um Brasil mais justo, solidário e humano.

Stédile: É necessário mudar a forma de se fazer política

Comentário: Abaixo uma entrevista do gigante que nunca esteve adormecido chamado João Pedro Stédile (MST). Na minha opinião Stédile vai na raiz do problema, pega na jugular. A conjuntura exige muitas leituras.


Stedile: “A juventude está de saco cheio dessa forma de fazer política”

25/6/2013 12:37
Por Nilton Viana, BdF - de São Paulo

João Pedro Stedile é um dos principais líderes do MST


É hora do governo aliar-se ao povo ou pagará a fatura no futuro. Essa é uma das avaliações de João Pedro Stedile, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), sobre as recentes mobilizações em todo o país. Segundo ele, há uma crise urbana instalada nas cidades brasileiras, provocada por essa etapa do capitalismo financeiro. “As pessoas estão vivendo um inferno nas grandes cidades, perdendo três, quatro horas por dia no trânsito, quando poderiam estar com a família, estudando ou tendo atividades culturais”, afirma. Para o dirigente do MST, a redução da tarifa interessava muito a todo o povo e esse foi o acerto do Movimento Passe livre, que soube convocar mobilizações em nome dos interesses do povo.

Em uma entrevista exclusiva ao jornal semanal Brasil de Fato, nesta terça-feira, reproduzida aqui no Correio do Brasil, Stedile fala sobre o caráter dessas mobilizações, e faz um chamamento: devemos ter consciência da natureza dessas manifestações e irmos todos para a rua disputar corações e mentes para politizar essa juventude que não tem experiência da luta de classes. “A juventude está de saco cheio dessa forma de fazer política burguesa, mercantil”, constata. E faz uma alerta: o mais grave foi que os partidos da esquerda institucional, todos eles, se moldaram a esses métodos. Envelheceram e se burocratizaram. As forças populares e os partidos de esquerda precisam colocar todas as suas energias para ir para a rua, pois está ocorrendo, em cada cidade, em cada manifestação, uma disputa ideológica permanente da luta dos interesses de classes. “Precisamos explicar para o povo quem são os principais inimigos do povo”.

– Como você analisa as recentes manifestações que vêm sacudindo o Brasil nas últimas semanas? Qual é a base econômica para elas terem acontecido?

– Há muitas avaliações sobre o porquê estão ocorrendo estas manifestações. Me somo à análise da professora Ermínia Maricato, que é nossa maior especialista em temas urbanos e já atuou no Ministério das Cidades na gestão Olívio Dutra. Ela defende a tese de que há uma crise urbana instalada nas cidades brasileiras, provocada por essa etapa do capitalismo financeiro. Houve uma enorme especulação imobiliária que elevou os preços dos aluguéis e dos terrenos em 150% nos últimos três anos. O capital financiou – sem nenhum controle governamental – a venda de automóveis para enviar dinheiro para o exterior e transformou nosso trânsito um caos. E, nos últimos dez anos, não houve investimento em transporte público. O programa habitacional Minha casa, minha vida empurrou os pobres para as periferias, sem condições de infraestrutura. Tudo isso gerou uma crise estrutural, em que as pessoas estão vivendo um inferno nas grandes cidades, perdendo três, quatro horas por dia no trânsito, quando poderiam estar com a família, estudando ou tendo atividades culturais. Somado a isso, a péssima qualidade dos serviços públicos, em especial na saúde e mesmo na educação, desde a escola fundamental, ensino médio, em que os estudantes saem sem saber fazer uma redação. E o ensino superior virou loja de vendas de diplomas a prestações, onde estão 70% dos estudantes universitários.

– Do ponto de vista político, por que isso aconteceu?

– Os 15 anos de neoliberalismo e mais os últimos dez anos de um governo de composição de classes transformou a forma de fazer política em refém apenas dos interesses do capital. Os partidos ficaram velhos em suas práticas e se transformaram em meras siglas que aglutinam, em sua maioria, oportunistas para ascender a cargos públicos ou disputar recursos públicos para seus interesses. Toda a juventude nascida depois das Diretas Já! não teve oportunidade de participar da política. Hoje, para disputar qualquer cargo, por exemplo, o de vereador, o sujeito precisa ter mais de um milhão de reais. O de deputado custa ao redor de dez milhões de reais. Os capitalistas pagam e depois os políticos os obedecem. A juventude está de saco cheio dessa forma de fazer política burguesa, mercantil. Mas o mais grave foi que os partidos da esquerda institucional, todos eles, se moldaram a esses métodos. Envelheceram e se burocratizaram. E, portanto, gerou na juventude uma ojeriza à forma dos partidos atuarem. E eles têm razão. A juventude não é apolítica, ao contrário, tanto é que levou a política para as ruas, mesmo sem ter consciência do seu significado. Mas está dizendo que não aguenta mais assistir na televisão essas práticas políticas que sequestraram o voto das pessoas, baseadas na mentira e na manipulação. E os partidos de esquerda precisam reapreender que seu papel é organizar a luta social e politizar a classe trabalhadora. Senão cairão na vala comum da história.

– E por que as manifestações eclodiram somente agora?

– Provavelmente tenha sido mais pela soma de diversos fatores de caráter da psicologia de massas, do que por alguma decisão política planejada. Somou-se todo o clima que comentei, mais as denúncias de superfaturamento das obras dos estádios, que são um acinte ao povo. Vejam alguns episódios. A Rede Globo recebeu do governo do estado do Rio de Janeiro e da prefeitura R$ 20 milhões do dinheiro público para organizar o showzinho de apenas duas horas do sorteio dos jogos da Copa das Confederações. O estádio de Brasília custou R$ 1,4 bilhão e não tem ônibus na cidade! A ditadura explícita e as maracutaias que a Fifa/CBF impuseram e que os governos se submeteram. A reinauguração do Maracanã foi um tapa no povo brasileiro. As fotos eram claras, no maior templo do futebol mundial não havia nenhum negro ou mestiço! E aí o aumento das tarifas de ônibus foi apenas a faísca para acender o sentimento generalizado de revolta, de indignação. A gasolina para a faísca veio do governo tucano Geraldo Alckmin, que protegido pela mídia paulista que ele financia, e acostumado a bater no povo impunemente – como fez no Pinheirinho e em outros despejos rurais e urbanos – jogou sua polícia para a barbárie. Aí todo mundo reagiu. Ainda bem que a juventude acordou. E nisso houve o mérito do Movimento Passe Livre, que soube capitalizar essa insatisfação popular e organizou os protestos na hora certa.

– Por que a classe trabalhadora ainda não foi à rua?

– É verdade, a classe trabalhadora ainda não foi para a rua. Quem está na rua são os filhos da classe média, da classe media baixa, e também alguns jovens do que o Andre Singer chamaria de subproletariado, que estudam e trabalham no setor de serviços, que melhoraram as condições de consumo, mas querem ser ouvidos. Esses últimos apareceram mais em outras capitais e nas periferias. A redução da tarifa interessava muito a todo o povo e esse foi o acerto do Movimento Passe livre, soube convocar mobilizações em nome dos interesses do povo. E o povo apoiou as manifestações. Isso está expresso nos índices de popularidade dos jovens, sobretudo quando foram reprimidos. A classe trabalhadora demora a se mover, mas quando se move afeta diretamente o capital. Coisa que ainda não começou acontecer. Acho que as organizações que fazem a mediação com a classe trabalhadora ainda não compreenderam o momento e estão um pouco tímidas. Mas a classe, como classe, acho que está disposta a também lutar. Veja que o número de greves por melhorias salariais já recuperou os padrões da década de 1980. Acho que é apenas uma questão de tempo, é só as mediações acertarem nas bandeiras que possam motivar a classe a se mexer. Nos últimos dias já se percebe que em algumas cidades menores e nas periferias das grandes cidades já começam a ter manifestações com bandeiras de reivindicações bem localizadas. E isso é muito importante.

– Vocês do MST e dos camponeses também não se mexeram ainda…

– É verdade. Nas capitais onde temos assentamentos e agricultores familiares mais próximos já estamos participando. Inclusive, sou testemunha de que fomos muito bem recebidos com nossa bandeira vermelha e com nossa reivindicação de reforma agrária, alimentos saudáveis e baratos para todo o povo. Acho que nas próximas semanas poderá haver uma adesão maior, inclusive realizando manifestações dos camponeses nas rodovias e municípios do interior. Na nossa militância está todo mundo doido para entrar na briga e se mobilizar. Espero que também se mexam logo.

– Na sua opinião, qual é a origem da violência que tem acontecido em algumas manifestações?

– Primeiro vamos relativizar. A burguesia, através de suas televisões, tem usado a tática de assustar o povo colocando apenas a propaganda dos baderneiros e quebra-quebra. São minoritários e insignificantes diante das milhares de pessoas que se mobilizaram. Para a direita, interessa colocar no imaginário da população que isso é apenas bagunça e no final, se tiver caos, colocar a culpa no governo e exigir a presença das Forças Armadas. Espero que o governo não cometa essa besteira de chamar a guarda nacional e as Forças Armadas para reprimir as manifestações. É tudo o que a direita sonha! Quem está provocando as cenas de violência é a forma de intervenção da Policia Militar. A PM foi preparada desde a ditadura militar para tratar o povo sempre como inimigo. E nos estados governados pelos tucanos (SP, RJ e MG), ainda tem a promessa de impunidade. Há grupos direitistas organizados com orientação de fazer provocações e saques. Em São Paulo, atuaram grupos fascistas e leões de chácaras contratados. No Rio de Janeiro, atuaram as milícias organizadas que protegem seus políticos conservadores. E claro, há também um substrato de lumpesinato que aparece em qualquer mobilização popular, seja nos estádios, carnaval, até em festa de igreja, tentando tirar seus proveitos.

– Há, então, uma luta de classes nas ruas ou é apenas a juventude manifestando sua indignação?

– É claro que há uma luta de classes na rua. Embora ainda concentrada na disputa ideológica. E o que é mais grave, a própria juventude mobilizada, por sua origem de classe, não tem consciência de que está participando de uma luta ideológica. Eles estão fazendo política da melhor forma possível, nas ruas. E aí escrevem nos cartazes: somos contra os partidos e a política? Por isso têm sido tão difusas as mensagens nos cartazes. Está ocorrendo, em cada cidade, em cada manifestação, uma disputa ideológica permanente da luta dos interesses de classes. Os jovens estão sendo disputados pelas ideias da direita e pela esquerda. Pelos capitalistas e pela classe trabalhadora. Por outro lado, são evidentes os sinais da direita muito bem articulada e de seus serviços de inteligência, que usam a internet, se escondem atrás das máscaras e procuram criar ondas de boatos e opiniões pela internet. De repente, uma mensagem estranha alcança milhares de mensagens. E aí se passa a difundir o resultado como se ela fosse a expressão da maioria. Esses mecanismos de manipulação foram usados pela CIA e pelo Departamento de Estado Estadunidense, na Primavera Árabe, na tentativa de desestabilização da Venezuela, na guerra da Síria. É claro que eles estão operando aqui também para alcançar os seus objetivos.

– E quais são os objetivos da direita e suas propostas?

– A classe dominante, os capitalistas, os interesses do império estadunidense e seus porta-vozes ideológicos, que aparecem na televisão todos os dias, têm um grande objetivo: desgastar ao máximo o governo Dilma, enfraquecer as formas organizativas da classe trabalhadora, derrotar quaisquer propostas de mudanças estruturais na sociedade brasileira e ganhar as eleições de 2014, para recompor uma hegemonia total no comando do Estado brasileiro, que agora está em disputa. Para alcançar esses objetivos, eles estão ainda tateando, alternando suas táticas. Às vezes, provocam a violência para desfocar os objetivos dos jovens.

Às vezes, colocam nos cartazes dos jovens a sua mensagem. Por exemplo, a manifestação do sábado (22), embora pequena, em São Paulo, foi totalmente manipulada por setores direitistas que pautaram apenas a luta contra a PEC 37, com cartazes estranhamente iguais e palavras de ordem iguais. Certamente, a maioria dos jovens nem sabem do que se trata. E é um tema secundário para o povo, mas a direita está tentando levantar as bandeiras da moralidade, como fez a UDN em tempos passados. Isso que já estão fazendo no Congresso, logo, logo vão levar às ruas. Tenho visto nas redes sociais controladas pela direita, que suas bandeiras, além da PEC 37 são: saída do Renan do Senado; CPI e transparência dos gastos da Copa; declarar a corrupção crime hediondo e fim do foro especial para os políticos. Já os grupos mais fascistas ensaiam Fora Dilma e abaixo-assinados pelo impeachment. Felizmente, essas bandeiras não têm nada a ver com as condições de vida das massas, ainda que elas possam ser manipuladas pela mídia. E, objetivamente podem ser um tiro no pé. Afinal, é a burguesia brasileira, seus empresários e políticos que são os maiores corruptos e corruptores. Quem se apropriou dos gastos exagerados da copa? A Rede Globo e as empreiteiras!

– Nesse cenário, quais os desafios que estão colocados para a classe trabalhadora e as organizações populares e partidos de esquerda?

– Os desafios são muitos. Primeiro devemos ter consciência da natureza dessas manifestações e irmos todos para a rua disputar corações e mentes para politizar essa juventude que não tem experiência na luta de classes. Segundo, a classe trabalhadora precisa se mover, ir para a rua, manifestar-se nas fábricas, campos e construções, como diria Geraldo Vandré. Levantar suas demandas para resolver os problemas concretos da classe, do ponto de vista econômico e político. Terceiro, precisamos explicar para o povo quem são os principais inimigos do povo. E agora são os bancos, as empresas transnacionais que tomaram conta de nossa economia, os latifundiários do agronegócio e os especuladores. Precisamos tomar a iniciativa de pautar o debate na sociedade e exigir a aprovação do projeto de redução da jornada de trabalho para 40 horas; exigir que a prioridade de investimentos públicos seja em saúde, educação, reforma agrária. Mas para isso, o governo precisa cortar juros e deslocar os recursos do superávit primário, aqueles R$ 200 bilhões que todo ano vão para apenas 20 mil ricos, rentistas, credores de uma dívida interna que nunca fizemos, deslocar para investimentos produtivos e sociais. É isso que a luta de classes coloca para o governo Dilma: os recursos públicos irão para a burguesia rentista ou para resolver os problemas do povo? Aprovar em regime de urgência para que vigore nas próximas eleições uma reforma política de fôlego, que, no mínimo institua o financiamento publico exclusivo da campanha. Direito a revogação de mandatos e plebiscitos populares autoconvocados. Precisamos de uma reforma tributaria que volte a cobrar ICMS das exportações primárias e penalize a riqueza dos ricos, e amenize os impostos dos pobres, que são os que mais pagam. Precisamos que o governo suspenda os leilões do petróleo e todas as concessões privatizantes de minérios e outras áreas publicas. De nada adianta aplicar todo os royalties do petróleo em educação, se os royalties representarão apenas 8% da renda petroleira, e os 92% irão para as empresas transnacionais que vão ficar com o petróleo nos leilões! Uma reforma urbana estrutural, que volte a priorizar o transporte público, de qualidade e com tarifa zero. Já está provado que não é caro, e nem difícil instituir transporte gratuito para as massas das capitais. E controlar a especulação imobiliária. E, finalmente, precisamos aproveitar e aprovar o projeto da Conferência Nacional de Comunicação, amplamente representativa, de democratização dos meios de comunicação. Assim, acabar com o monopólio da Globo, para que o povo e suas organizações populares tenham amplo acesso a se comunicar, criar seus próprios meios de comunicação, com recursos públicos. Ouvi de diversos movimentos da juventude que estão articulando as marchas que talvez essa seja a única bandeira que unifica a todos: abaixo o monopólio da Globo! Mas, para que essas bandeiras tenham ressonância na sociedade e pressionem o governo e os políticos, é imprescindível a classe trabalhadora se mover.

– O que o governo deveria fazer agora?

– Espero que o governo tenha a sensibilidade e a inteligência de aproveitar esse apoio, esse clamor que vem das ruas, que é apenas uma síntese de uma consciência difusa na sociedade, que é hora de mudar. E mudar a favor do povo. Para isso o governo precisa enfrentar a classe dominante, em todos os aspectos. Enfrentar a burguesia rentista, deslocando os pagamentos de juros para investimentos em áreas que resolvam os problemas do povo. Promover logo as reformas políticas, tributárias. Encaminhar a aprovação do projeto de democratização dos meios de comunicação. Criar mecanismos para investimento pesados em transporte público, que encaminhem para a tarifa zero. Acelerar a reforma agrária e um plano de produção de alimentos sadios para o mercado interno. Garantir logo a aplicação de 10% do PIB em recursos públicos para a educação em todos os níveis, desde as cirandas infantis nas grandes cidades, ensino fundamental de qualidade até a universalização do acesso dos jovens a universidade pública. Sem isso, haverá uma decepção e o governo entregará para a direita a iniciativa das bandeiras, que levarão a novas manifestações, visando desgastar o governo até as eleições de 2014. É hora do governo aliar-se ao povo ou pagará a fatura no futuro.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Homenagem ao grande brasileiro Bautista Vidal


Comentário: Uma homenagem a esse grande brasileiro que foi Bautista Vidal que nos deixou no último sábado (01/06) aos 78 anos. Tive a honra de participar de duas conferências de Bautista Vidal, uma no final dos anos 1990 na Universidade Federal de Viçosa promovida pelo Diretório Central dos Estudantes e outra num evento em Belo Horizonte em 2007, quando já cursava o mestrado. Em todas as conferências pude comprovar a propriedade com que falava esse grande cientista brasileiro que deu uma grande contribuição para o nosso povo. Agora mesmo, durante meus estudos de qualificação, estou fazendo uma revisão sobre o marco regulatório do etanol e das biomassas no Brasil. Não há como falar de etanol e biomassa sem lembrarmos de Bautista Vidal. Com ele aprendi que um estudioso das energias renováveis deve ser acima de tudo um militante político. Sua obra permanece, vamos precisar de muitos Bautistas para que o Brasil exerça de fato o seu PODER DOS TRÓPICOS. Abaixo um belo texto de Elaine Tavares em sua homenagem.

 Com Bautista Vidal ao centro durante evento em BH em 2007.

Encantou Bautista Vidal

 

 

Sanguessugado do Palavras Insurgentes
Elaine Tavares


Encantou no último sábado, o paladino da biomassa: José Walter Bautista Vidal. Um nacionalista, apaixonado e apaixonante. Impossível ficar impassível diante do profundo amor que tinha pelo país e pelo pensamento próprio, autóctone, original. Cientista, professor universitário, físico de renome, ele foi, juntamente com Urbano Ernesto Stumpf (1916-1998), o idealizador do motor à álcool, que hoje move a maioria dos carros brasileiros. Fez da sua vida uma peregrinação incansável pela soberania energética, dando conferências por todo o país, nos recantos mais inauditos, e escrevendo livros. Conseguiu editar 12 títulos entre os quais estão : De Estado Servil à Nação Soberana; Civilização Solitária dos Trópicos; Soberania e Dignidade, Raízes da Sobrevivência; O Esfacelamento da Nação; e A Reconquista do Brasil.
O último trabalho foi a "Economia dos Trópicos", no qual martela pesada crítica ao pensamento cepalino do desenvolvimento e manifesta seu desejo de ver o Brasil saindo da dependência, rompendo com o sistema de dominação global. Bautista acreditava que o sol, a água e a mata eram as maiores riquezas do país e que com esses dois elementos o Brasil poderia ser auto suficiente em energia. Fez dessa ideia o seu discurso itinerante e defendeu até o fim dos seus dias a proposta da biomassa como substituta do petróleo e dos outros sistemas poluentes e destruidores.
Bautista Vidal era chamado para discutir energia em todos os lugares do Brasil, mas foi muito pouco escutado por aqueles que tinham o poder de fazer acontecer as suas idéias. Sonhava com um encontro íntimo com Fidel. Acreditava que o gigante cubano iria entender a sua proposta e ser cúmplice dos seus desejos. O encontro nunca se deu. Quando Chávez assomou no cenário latino-americano, voltou seus olhos para o venezuelano sonhando também trazê-lo para sua proposta de energia limpa. Com esse teve muitas conversas mas, ao que parece, não teve tempo de fazer brotar uma outra proposta de matriz energética para a Venezuela. Foi-se o comandante, e agora Vidal.
Lembro dele, numa noite amena em Campina Grande, falando alto, as bochechas vermelhas na excitação das palavras que jorravam aos borbotões. Tudo o que queria era que o Brasil acreditasse nos seus jovens, que os governos criassem laboratórios, centros de pesquisa, e criassem a ciência nova, descolonizada. Vidal se mudava em menino quando defendia esse sonho. Ele acreditou nisso até o fim dos seus dias. Crítico feroz do neoliberalismo e das privatizações efetuadas por FHC, Bautista não poupava imprecações contra aqueles que chamada de vende-pátria. Amava o Brasil, amava a ciência.
Enquanto vivo, suas ideias mofaram nas prateleiras. Agora, encantado, haverá de brotar outra vez, descoberto por um ou outro. E, dos livros agora heréticos, haverão de repercutir seus sonhos de um país autônomo, soberano. Porque é sempre assim que acontece. Existem pessoas que são póstumas, com suas ideias reconhecidas só bem depois de deixarem o mundo. Espero que não demore.
De minha parte, tive a alegria de ter convivido com esse "quixote" por várias ocasiões, sentada a seus pés, ouvindo seus ensinamentos, seus palavrões, suas indignações. O Brasil fica mais pobre sem esse homem especial. Mas, Bautista Vidal é um desses seres eternos, que deixam sua marca indelével. Agora, transformado ele mesmo em energia, retornará, na íntima fusão a qual tanto amava, de sol, verde a água. E nós, que o conhecemos e o amamos, o receberemos como merece: estudando seus livros, defendendo nossa soberania, criando pensamento próprio.
Bautista Vidal, nacionalista, tropical, homem de paixão. Nunca nos deixe em paz. Tua voz troante, indignada e profética seguirá ecoando. Tu vives.