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quarta-feira, 9 de maio de 2012

Esperança na França?

Comentário: Rui Martins, correspondente internacional na Suiça fala neste artigo da esperança da construção de uma nova França para a juventude e trabalhadores daquele país. Não se pode deixar de sonhar. O jornalista deixa claro, no entanto, que os líderes políticos atualmente são apenas marionetes nas mãos dos capitalistas. Creio que ainda se pode sonhar.

 

Expectativa da juventude e trabalhadores franceses de que Miterrand reencarne em Hollande. 

Foto: O Globo 

Do Correio do Brasil

 

De Mitterrand a Hollande

8/5/2012 19:00,  Por Rui Martins, de Genebra





Num acesso de nostalgia, colunista lembra dos onze anos que viveu exilado em Paris ao ver a juventude cheia de esperança em outro mundo com a vitória de Hollande.
Tenho uma ligação afetiva com a França. Ela vem dos mais de onze anos de exílio que nela vivi. Jornalista, como sempre provocador, foi a França quem me permitiu evitar as perseguições dos anos de chumbo, e assim viver, estudar e trabalhar para sobreviver, em Paris.
Sempre costumo dizer que, apesar de ter vivido uma época, numa pequena chambre de bonne com minha companheira, sem água quente e sem possibilidade de chuveiro (tinha de usar gants de toilette) e com o chamado wc de militar coletivo no corredor, foi um exílio dourado porque abriu para mim, de origem pobre e que trabalhava de dia e estudava de noite no Largo de São Francisco, a oportunidade de viver em Paris, cidade mítica para a burguesia brasileira, acostumada a esbanjar ali sua fortuna. Sem esquecer que minha chambre de bonne, era na rue de la Sorbonne.
Foi em Paris que nasceram duas de minhas filhas e mesmo um neto. Quando a possibilidade de um emprego e vida melhor me trouxeram à Suíça, juntava à saudade de São Paulo, megalópole que eu amava, à saudade de Paris, mais próxima e mais recente.
Se não podia ouvir Chico Buarque sem ter nó na garganta, não podia também ouvir Leo Ferré, Brel, Jean Ferrat e o grupo Téléphone (cuja composição Un Autre Monde era tocada antes dos comícios do socialista da época, François Mitterrand) sem aumentar o volume do rádio de meu carro para tentar me transportar para as ruas do Quartier Latin.
Por que me chegam essas lembranças ?
Por ter visto aquela juventude reunida na praça da Bastilha, em Paris, tão logo se anunciou a vitória de François Hollande, jovens plenos da esperança de um outro mundo. Um clima de euforia igual ou mesmo maior ao de maio de 1981.
O céu não existe, Mitterrand e os socialistas fizeram muitos erros, porém nada comparáveis com as perdas de conquistas sociais, vindas desde a Frente Popular, que iam sendo subtraídas do povo nos últimos anos.
Na minha idade não é permitido mais sonhar, porém o sonho e a esperança são coisas próprias da nossa espécie, mais fortes que o apelo da razão e das limitações da realidade, e assim, me permito acreditar na tenacidade do novo presidente francês, normal como ele próprio se definiu.
Será que Hollande funcionará como uma barragem contra os desvarios das finanças, especulações e do neoliberalismo que levaram a crise, primeiro nos EUA, e agora aqui na Europa ?
Terá Hollande, com seu sorriso e, como ele diz, amor pelas pessoas (um jogo de sons das palavras permitido pela língua francesa – j´aime les gens, pas l´argent ) condições de derrotar o dragão das multinacionais, dos bancos, dos lucros e das bolsas de valores ? Os políticos e os chefes de Estado não passam hoje de marionetes do poder maior, o poder econômico.
Dentro de três semanas, haverá na França o terceiro turno eleitoral, o das legislativas, quando a direita de Sarkozy, mesmo estraçalhada e dividida, tudo fará para evitar a maioria absoluta para os socialistas. Sem esquecermos da mobilização da extrema-direita de pai e filha Le Pen, que conseguiu colocar nas urnas mais de dois milhões de votos brancos.
Perdoem-me o fundo musical, porém nem François Hollande pôde deixar de dar uns passos de dança com sua companheira Valerie Treierweiller, emTulle, depois de confirmada sua vitória, ao som brega dos acordeões tocando La Vie en Rose.
PS.clique no link abaixo e leia ouvindo a música dos anos Mitterrand-
Publicado originalmente no site Direto da Redação
Rui Martins, jornalista, escritor, correspondente em Genebra

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