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domingo, 5 de fevereiro de 2012

Entrevista com Ruy Cabeção: Investidores e o futebol

Ruy   Brasiliense (Foto: Marco Antônio Astoni/Globoesporte.com)

 

 

 

 

 

Separados no nascimento: Ruy Cabeção e Megamente

Comentário: A entrevista a seguir com o lateral direito Ruy Cabeção é interessante pois fala sobre os bastidores do futebol. O assunto investidores é muito sério. Me remete à insistência em se escalar o pulha do Cortês, na lateral esquerda do Botafogo e o escroque do Elkesson como meia. Me perdoem os leitores desse blog em mencionar as escalações apenas do Botafogo, tenho certeza que isso ocorre em outros times também. Sempre gostei da raça do Ruy Cabeção, embora ele não fosse unanimidade entre os botafoguenses. Como diria um antigo ditado iugoslavo: "Onde o dinheiro fala, a verdade cala." É assim, e tem sido mais ainda, no futebol.

 

Do Portal globoesporte.com 

 

Sem clube, Ruy diz que paga por aqueles que não levam futebol a sério

'Hoje em dia, os clubes acham que os mais velhos são gordos e não correm'

Por Diego Rodrigues Rio de Janeiro
Ruy Bueno Neto, lateral-direito, 33 anos, procura um clube. Com passagens por times como Botafogo, Fluminense, Cruzeiro, Grêmio, Figueirense e Náutico, por exemplo, Ruy Cabeção, como é conhecido, segue aprimorando a forma física e aguardando. Aguardando um clube que tenha interesse em contar com a experiência de um jogador que garante estar mais maduro e com mais bagagem para ensinar aos mais jovens. Na sua opinião, no entanto, o fato de estar desempregado mesmo com quase um mês de bola rolando no Brasil, vem do prejuízo que alguns jogadores causam ao não serem transparentes.
- Hoje em dia ainda pagamos pelos jogadores que não tinham mais condições e insistiam, sem dar retorno ao clube.
Entre outros assuntos, Ruy falou sobre o mundo do futebol, passagens por clubes como Brasiliense e Botafogo e a relação com empresários. Confira a entrevista:Você tem no currículo passagens por clubes grandes, mas hoje está sem time, aguarda propostas. Se sente injustiçado no meio do futebol?
- Até que não. O mercado é que está muito estranho, esquisito. Aqui no Brasil, desde quando comecei como profissional, existia preconceito com jogadores acima de 30 anos. Quando somos novos, não nos precupamos com o futuro. Aí, via jogadores de 33 anos que não se cuidavam e iam para os clubes mesmo sabendo que não tinham condições, e isso se refletiu nas gerações futuras. Por isso, os clubes ainda acham que os mais experientes não têm mais valor.
Recentemente o Alfredo Sampaio falou que jogadores mais experiente às vezes até treinam mais para provar que ainda podem ser úteis…
- Não é nem questão disso. Tem o Felipe, o Juninho e o Marcos Assunção, por exemplo. Eles são jogadores que precisam ser lembrados pelo profissionalismo. E é em cima deles que os clubes precisam analisar as contratações. Hoje em dia acham que jogador mais velho está gordo, que não corre mais. Em todos os clubes que passei joguei. Fui super profissional no Brasiliense, não me machuquei. Isso não é mais visto pelos clubes. Sempre fui tachado como jogador caro, que recebia bem. Isso não tem nada a ver. Analisamos propostas. Mas acho que hoje em dia ainda pagamos pelos jogadores que não tinham mais condições e insistiam, sem dar retorno ao clube.
Que tipo de jogador é esse?
- Existem dois tipos de atletas: o jogador que é boleiro e o profissional, que corre e se dedica. Temos que saber separar o boleiro do atleta. Fui profissional, nunca fiquei no departamento médico. Nunca tive uma cirurgia séria, mas os clubes, às vezes por já terem tido maus momentos com esse tipo de pessoa, não acreditam. Isso acabou atrapalhando. O Corinthians foi campeão (brasileiro de 2011) com a maioria de jogadores experientes. O Figueirense tinha uma safra boa, e tinha também o Túlio, o Julio Cesar. O Inter também. Outro fator que atrapalha é esse negócio de grupo de investidores. Não existe currículo mais. Não se avalia mais se o cara é campeão ou não. Agora se avalia se ele dá retorno financeiro ao empresário. Esses outros que não dão, não vão jogar. Antes os jovens eram campeões antes de chegarem em um time grande. Tinha que provar o valor em campo. Hoje em dia não é assim. Nem tem currículo mais. Tem jogador que nunca chegou a lugar nenhum e está em time grande. E às vezes nem joga. Isso dificulta os profissionais de verdade.
Tem jogador que é escalado por pressão de empresário ou dirigente?
- Isso eu não posso dizer, porque muitas coisas não temos como provar. Mas dentro do grupo você vê um jogador que faz por merecer, trabalha todos os dias, mas tem outro jogando, porque ele pode ser a bola da vez para ser vendido ou algum empresário forte pode ter influencia no clube. Hoje se trabalha desse jeito. Nos clubes grandes a torcida cobra, a imprensa… nos clubes menores não tem como fazer. A gente vê que tem jogador bem, mas nunca é titular e não sabe o porquê. Você vê também jogadores anos nos times e nunca jogam.
Pelo que eu entendi, se não tiver empresário hoje em dia é complicado...
- Esse negócio de empresário, na época de Botafogo, Figueirense, era toda hora gente ligando. Meu próprio empresário era diferente. As pessoas te dão mais atenção porque veem que dali podem ganhar mais dinheiro. Hoje, na minha situação, consigo eu mesmo resolver minhas coisas, tenho nível superior. Como não estou no meio, não tenho como jogar e estar todo dia com um intermediador daqui e ali. Eu sou só um jogador. Hoje tudo passa por essas pessoas. E como hoje eu sou uma peça para dar experiência ao time e o clube não vai ganhar fortuna comigo, não interessa. Tem que ter uma paciência imensa.
Isso te magoa?
- A gente fica tudo: chateado, decepcionado... Se for pelos torcedores dos clubes que passei, muitos pedem para voltar, porque viram o trabalho que foi feito. Mas só isso hoje em dia não funciona mais. A não ser os jogadores lá de fora, que tem currículo internacional. Para os brasileiros é mais complicado.
Mas isso ainda é o efeito daquilo que falou anteriormente, dos jogadores que aceitavam o contrato mesmo sabendo que não têm condições?
- Sempre respeito o jogador. A culpa é do cara que contratou. Como companheiro de clube, não vou maltratar. Se eu estiver com 45 anos na minha casa e me fizerem uma proposta, minha família aceitar, não vou aceitar? Mas acaba atrapalhando.
No mundo do futebol muito se fala que treinadores e dirigentes levam dinheiro do jogador. Vivenciou algo do tipo?
- Nunca vi acontecer. A gente não vê, mas já trabalhei com um treinador que falava que muitos deles tiveram oportunidade de ser top, mas não gostavam de fazer essas coisas e que procuravam ser o mais limpo possível, não levar dinheiro, por isso não são top. Infelizmente estamos no Brasil. E não tem como provar.
Em relação a clube, você teve uma passagem marcante pelo Botafogo. Mesmo campeão estadual, em alguns momentos foi vaiado. Se sentiu perseguido? - Acho que sim. Quando fomos campeões Carioca em 2006, tinha nove anos que o clube não conquistava o título. Aí, quando luta pelo título, existe essa pressão. E é uma torcida muito sofrida, apaixonada. Mas temos que entender o torcedor. Às vezes, uns jogadores precisam se esforçar mais que os outros para agradar. Torcedor de time grande, independentemente de onde tiver, vai cobrar. E a torcida do Botafogo é uma dessas. O Vasco foi campeão da Copa do Brasil, Flamengo e Fluminense do Brasileiro. E o torcedor fica chateado.
Você já passou por algumas situações no Brasiliense e no próprio Botafogo com torcedores. Acha que eles têm muita liberdade nos clubes?
- Mas isso é muito por educação. Infelizmente é a educação. Isso tem que ser cobrado e punido pela entidade máxima. Não pode aceitar como o caso do Vagner Love, que foi ameaçado ao ir ao banco (quando defendia o Palmeiras). O próprio clube deve ser punido e ver que isso não é coisa que se faça. Mas parece que isso nunca vai acontecer.
Pessoas de dentro clube não facilitam essa entrada também?
- Não dá para falar porque o dirigente fica na sala dele e não sabe quem entra. O clube é muito grande, tem conselheiros e um monte de coisa. O que tem que bater na tecla é que tem que punir. Ninguém entra na sala da presidente Dilma, entra? Nem na Petrobrás, por exemplo. Lá é o local de trabalho e não tem como entrar. Mas todo mundo ainda acha que jogar futebol é uma brincadeira.
Você já disse uma vez que quer fazer Direito para corrigir algumas injustiças. Ainda tem esse pensamento para o futuro? Quais são as injustiças?
- Tem muitas coisas no futebol que me deixam chateado, mas quando encerrar não quero mexer nisso. Não tem como abraçar o mundo, mas tenho muita vontade de ser treinador. E vou procurar ser diferente. Não quero ser igual aos outros. Quero ter meu pensamento. Se for dirigente, da mesma forma. Sempre fui meio diferente em relação aos outros jogadores Eu gostaria de fazer alguma coisa diferente se permitirem, porque sabemos muito bem como funciona.
Pelo que você vê no meio, tem como mudar isso?
- Isso consegue mudar se os clubes tiverem na direção ex-jogadores. Quem foi atleta entende, sabe no olhar se o cara tem força, habilidade. Normalmente quando tem uma habilidade, o jogador ainda pode salvar. Mas aquele que é tachado pela força e a velocidade, de pouca técnica, já perdeu 70% do que tinha de bom.
Em relação a campo-bola, concentração é algo que jogador costuma reclamar muito. Já vivenciou alguma situação inusitada de companheiros com mulheres?
- Eu nunca vi. Mas em time grande é mais difícil porque tem seguranças. Uma das coisas mais chatas da face da terra é concentração. Dizem que ficamos em hotel cinco estrelas, come não sei o que, mas é o mesmo que ficar trancado no quarto do seu apartamento. Quando a gente é jovem e tem dinheiro, só passa coisa errada na cabeça. Aí, se liberar, parece que o dia vai acabar, você quer aproveitar tudo em um dia só. Tive uma passagem pela Hungria e lá não tem concentração, eles são bem mais conscientes. Acho que 50% é culpa da nossa cultura.
O confinamento prejudica o grupo?
- Se não tiver um grupo bom, você fica três dias concentrado e o clima não fica bom. Mas com grupo que fica bem, é mais brincadeira, o pessoal se entende mais. Nunca vi nenhum bate-boca, mas reclamações reivindicando algo, sim. No final é do dirigente e do treinador a última palavra. Tem resultados bons e ruins, mas concentração não é decisiva.
E a pré-temporada? Muito chato?
- É chato, mas é o essencial. Ali você faz uma base boa, com a musculatura forte. Nossa temporada é muito desgastante. Se não tiver uma pré-temporada boa, o número de lesões vai ser maior. É chata e sacrificante, mas muito importante.
E a relação com a imprensa? É verdade que jogador não gosta muito?
- Na maioria dos centros que passei tive um bom relacionamento com a maioria do pessoal da imprensa. O que o jogador não gosta, apesar de ser pessoa pública, é de ser cobrado pelo que acontece fora de campo. Não gosta quando vira fofoca. Por isso os jogadores às vezes têm dificuldade de dar uma entrevista por telefone, que não seja depois do jogo, na coletiva. Porque na coletiva está provado. Às vezes tem pessoas que dizem que você falou uma coisa que não falou. Teve um caso meu no próprio Fluminense. Depois do empate com o Goiás, falaram que existiu uma briga dos jogadores comigo por uma falta. Pelo contrário, a briga foi de outros dois jogadores e entrei para separar. Por esse tipo de coisa jogador de futebol acaba distante. Todo mundo acha que jogador é burro, mas só fica burro quem quer.

Jogador influencia na escalação do treinador? Ou é escalado por interesse?

- Isso é muito difícil de acontecer, porque chega uma hora que estoura. Às vezes o jogador tem mais amizade com o treinador e isso pode criar ciúme no grupo, mas coisa pequena. No futebol muita coisa atrapalha, mas quando entra em campo, os problemas ficam do lado de fora. São 30 jogadores geralmente em um elenco. Às vezes sua mulher é mais braba e você tranquilo. Se os dois são brabos é complicado. E não tem como dar certo. É normal. São 30 jogadores. O treinador tem que saber equilibrar. O mais importante é que, em campo, eles tocam a bola. Fora de campo cada um faz o que quiser. O importante é a harmonia em campo.
Mas quando o grupo é fechado isso influencia na disposição do time...
- Às vezes um time é tecnicamente melhor, muito superior ao outro, mas o outro time acaba se motivando tanto, se mobiliza tanto, que acaba superando na vontade. A vontade todo mundo tem, mas se tiver muito sangue nos olhos, acaba superando. A prova maior foi o Fluminense em 2009. Lembro um jogo pelo Náutico. Fomos para jogar contra o Santos com o Neymar aparecendo, o Kleber Pereira lutando pela artilharia e arrancamos o empate.
Por falar em Fluminense, o Fred foi acusado de interferir na escalação. Isso acontecia?
- Isso eu não sei falar porque eu não estava lá quando teve a briga dele com o Emerson. Mas creio que não. Às vezes a vaidade é tanta, que o cara tem um status e certas pessoas não aceitam, mas longe disso. Ele é um cara abençoado. Prefiro não acreditar nisso.
Já te prometeram muita coisa e não cumpriram?
- Até que de contrato não tive muito problema. Tenho só duas ações em outros clubes. O que me deixa chateado é em relação à palavra. Num caso recente, o treinador disse que, enquanto estivesse no clube, não ia me mandar embora, que eu o ajudei bastante. O dirigente falou que estava certo a renovação e, por circunstâncias inexplicaveis, não renovou. Eu tive um caso no Fluminense, com dois anos de contrato e fui surprreendido com aviso que não me aproveitariam.
No Brasiliense teve problemas também?
- Lá é diferente, porque tem um investidor muito forte. Falta muita coisa para se tornar como os outros. Tem um campo muito bom, tem dinheiro e falta um material esportivo mais profissional. Mas todos lá são super corretos.
 

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