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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

As limitações do imperialismo contra o Irã

 

 

Comentário: Espero que nenhuma bomba estoure sobre o território iraniano, mas infelizmente a última parte do Editorial do Portal Vermelho parece anunciar o que poderá ocorrer.


O chamado “Ocidente” (EUA, União Europeia e seus aliados) está com um grande problema no Oriente Médio, embora com um nome curto: Irã.

As ameaças contra a milenar Pérsia cresceram nos últimos meses, mesmo ante os acenos de Teerã ao caminho da negociação. Os cães de guerra dos EUA, de Israel e da União Europeia só aceitam a rendição incondicional às suas pretensões geopolíticas e se recusam a levar em conta a argumentação iraniana a favor de seu direito soberano de dominar a tecnologia nuclear nas condições estabelecidas pelo Tratado de Não Proliferação das Armas Nucleares, do qual o país é signatário e cujas regras segue.

Isso não importa. No cálculo geopolítico, um Irã independente é uma ameaça cada vez maior para o rottweiller do imperialismo na região, Israel. Para os sionistas é inaceitável uma nação soberana e com capacidade militar para defender seu território e sua independência, fator que consideram uma forte ameaça de “desestabilização” numa região onde, até agora, Israel impõe impunemente sua vontade através de bárbaros e sanguinários ataques contra todos aqueles que resistem à sua vontade e aos seus interesses, como os palestinos.

Este é justamente o impasse atual. O Irã tornou-se uma potência regional cuja capacidade de defesa precisa ser reconhecida. Este é, aliás, o sentido das seguidas declarações de dirigentes iranianos que asseguram a capacidade defensiva do país e manifestam o desejo de demonstrá-la na prática, no campo de batalha. Venham, dizem estas autoridades, e serão combatidos à altura!

O quadro geopolítico mudou. Os EUA já não são a única superpotência que puderam ser no curto período que seguiu à derrocada da União Soviética. Hoje, a realidade é rica em exemplos de que objetivamente o mundo unipolar deixou de existir e que as relações de poder já não são aquelas que existiram nos anos 1990. É um jogo no qual o Irã tornou-se uma peça significativa não só pelas alianças internacionais, mas principalmente pela capacidade militar própria que desenvolveu nas últimas décadas.

Se o governo de Israel sinaliza a intenção desatinada – desesperada, esta talvez seja a palavra melhor – de atacar as centrais de pesquisa nuclear iranianas, vozes mais prudentes nos principais centros imperialistas como Washington, Londres e Paris, aconselham cautela ante o temor do desarranjo mundial que se seguiria e da explosão do preço do petróleo que viria em sua esteira. Há quem calcule que poderia chegar a US$ 300 o barril, jogando de vez os EUA e a União Europeia no buraco da crise econômica que eles provocaram e que não dá sinais de terminar.

Os sinais do esgotamento da tática imperialista se multiplicam. O Irã antecipou-se às sanções recentemente adotadas sob pressão do imperialismo e decidiu, soberanamente, deixar de vender petróleo à França e à Inglaterra, e colocou na lista outros países europeus (Itália, Grécia, Portugal, Espanha e Holanda) que deixariam de receber seu petróleo. Voltou as costas aos que adotaram as sanções como se estas fossem uma ameaça.

Mais. Recentemente, demonstrou o crescimento de sua capacidade técnica nuclear ao exibir ao mundo que pode enriquecer urânio a 20%, algo que estava fora dos cálculos sobre seu domínio nesta área. Em termos militares, tem realizado repetidas manobras com navios, aviões e mísseis cuja sofisticação tira o sono dos estrategistas do imperialismo. A decisão de fazer um avião não tripulado (drone) dos EUA pousar suavemente em seu território e se apossar dele, em dezembro passado, trouxe embutida a mensagem da capacidade de interferir nos sistemas de navegação, computadorizados e altamente sofisticados, sobre os quais os especialistas dos EUA julgavam deter um monopólio insuperável. Já não têm, como os técnicos iranianos demonstraram.

Um país que age em defesa de seu povo e de sua soberania não pode cometer bravatas ou fazer promessas, mesmo bélicas, que não possa cumprir. Os iranianos parecem seguir este roteiro. E agora garantem que, ante a iminência de um ataque contra o país, poderão tomar a dianteira e atacar primeiro.

É uma situação que vai se tornando difícil para o imperialismo. Mesmo porque, na eventualidade de um ataque – dos EUA ou de Israel – contra o Irã, acumulam-se as dúvidas sobre sua eficácia (chegarão mesmo aos alvos, às instalações de pesquisa nuclear protegidas no subsolo das montanhas?), ao mesmo tempo em que fica cada vez mais clara a disposição iraniana de responder ao ataque e, assim, demonstrar na prática sua capacidade bélica, impondo ao imperialismo o reconhecimento de um fato sobre o qual, até agora, seus especialistas tergiversam.

O imperialismo tem um grave problema pela frente no Oriente Médio: se atacar o Irã, corre o risco de ficar desmoralizado pela provável reação que enfrentará. Se não atacar – dado que a guerra verbal já foi longe demais – terá que explicar por que não atacou. E, no fim, seja qual for o caminho que seguir, com certeza sairá deste imblóglio ainda mais desmoralizado e enfraquecido.

sábado, 25 de fevereiro de 2012

Entrevista com um torturador maldito


Comentário: Patifes como esse "bom cristão" ganhando aposentadorias de R$ 11 mil e R$ 20 mil por mês. O pior é que existem muitos "velhinhos bonachões" como esse e órfãos da ditadura espalhados em nossa sociedade, que de vez em quando colocam as suas garras pra fora e fazem verdadeiras odes ao nazi-fascismo tupiniquim. A Comissão da Verdade é mais do que necessária para identificar esses covardes e passar a nossa história a limpo. Espero que sigamos o exemplo da Argentina e possamos enquadrar esses criminosos. Mas não fiquemos "com a boca aberta escancarada cheia de dentes esperando" essa hora chegar. Temos que exigir a verdade e cobrar das autoridades, cuja a representante máxima sofreu torturas nos porões da ditadura, essa atitude!!! Parabéns à jornalista Marina Amaral pela reportagem.

Especial: Conversas com Mr. Dops

Por Marina Amaral, da Pública | Yahoo! Notícias – ter, 21 de fev de 2012



José Paulo Bonchristiano no sofá de seu apartamento no Brooklin, zona Sul de São Paulo (Foto: Julia Rodrigues)Aos 80 anos, José Paulo Bonchristiano conserva o porte imponente dos tempos em que era o “doutor Paulo”, delegado do Departamento de Ordem Política e Social de São Paulo, “o melhor departamento de polícia da América Latina”, não se cansa de repetir.“O DOPS era um órgão de inteligência policial, fazíamos o levantamento de todo e qualquer cidadão que tivesse alguma coisa contra o governo, chegamos a ter fichas de 200 mil pessoas durante a revolução”, diz, referindo-se ao golpe militar de 1964, que deu origem aos 20 anos de ditadura no Brasil.


Embora esteja aposentado há 27 anos, não há nada de senil em sua atitude ou aparência. Os olhos astutos de policial ainda dispensam os óculos para perscrutar o rosto do interlocutor, endurecendo quando o delegado acha que é hora de encerrar o assunto.

Bonchristiano gosta de dar entrevistas, mas não de responder a perguntas que lancem luz sobre os crimes cometidos pelo aparelho policial-militar da ditadura do qual participou entre 1964 e 1983: prisões ilegais, sequestros, torturas, lesões corporais, estupros e homicídios que, segundo estimativas da Procuradoria da República, vitimaram cerca de 30 mil cidadãos. Destes, 376 foram mortos, incluindo mais de 200 que continuam até hoje desaparecidos.



Os arquivos do DOPS se tornaram públicos em 1992, mas muitos documentos foram retirados pelos policiais quando estavam sob a guarda do então diretor da Polícia Federal e ex-diretor geral do DOPS, Romeu Tuma. Entre os remanescentes estão os laudos periciais falsos, produzidos no próprio DOPS, que transformavam homicídios cometidos pelos agentes do Estado em suicídios, atropelamentos, fugas. No caso dos desaparecidos, os corpos eram enterrados sob nomes falsos em valas de indigentes em cemitérios de periferia.


Globo, Folha, Bradesco – e Niles Bond
Bonchristiano é um dos poucos delegados ainda vivos que participaram desse período, mas ele evita falar sobre os crimes. Prefere soltar o vozeirão para contar casos do tempo em que os generais e empresários o tratavam pelo nome. Roberto Marinho, da Globo, diz, “passava no DOPS para conversar com a gente quando estava em São Paulo”, e ele podia telefonar a Octávio Frias, da Folha de S. Paulo “para pedir o que o DOPS precisasse”. Quando participou da montagem da Polícia Federal em São Paulo, conta, o fundador do Bradesco mobiliou a sede, em Higienópolis: “Nós do DOPS falamos com o Amador Aguiar ele mandou por tudo dentro da rua Piauí, até máquina de escrever”.
O delegado Paulo Bonchristiano e o cantor Roberto Carlos; na época da Jovem Guarda, o Dops fazia a segurança da …
O “doutor Paulo” sorri enlevado ao lembrar dos momentos passados com o marechal Costa e Silva (o presidente que assinou o AI-5 em dezembro de 1968, suspendendo as garantias constitucionais da população). “O Costa e Silva, quando vinha a São Paulo, dizia: ‘Eu quero o doutor Paulo Bonchristiano’”, e imita a voz do marechal – ele adora representar os casos que conta.


“Eu fazia a escolta dele e ele me chamava para tomar um suco de laranja ou comer um sanduíche misto na padaria Miami, na rua Tutóia, vizinha ao quartel do II Exército. Todo mundo querendo saber onde estava o presidente da República, e eu ali”, delicia-se.


Gaba-se de ter sido enviado para “cursos de treinamento em Langley” nos Estados Unidos, pelo cônsul geral em São Paulo, Niles Bond, que admirava a “eficiência” da polícia política paulista. E o chamava de “Mr. Dops”.


Orgulha-se também de outro apelido – “Paulão, Cacete e Bala” – que diz ter saído da boca dos “tiras” quando “caçava bandidos” na RUDI (Rotas Unificadas da Delegacia de Investigação), no início da carreira, com um “tira valente” chamado Sérgio Fleury. Anos depois, os dois se reencontrariam na Rádio Patrulha, de onde saiu a turma do Esquadrão da Morte, levada para o DOPS em 1969, quando Fleury entrou no órgão.


“Polícia é polícia, bandido é bandido”, diz Bonchristiano. “Para vocês de fora é diferente, mas para nós, acabar com marginal é uma coisa positiva. O meu colega Fleury merecia um busto em praça pública”, afirma, sem corar.


O delegado Sérgio Fleury e sua turma de investigadores se celebrizaram por caçar, torturar e matar presos políticos no DOPS, enquanto continuavam a exterminar suspeitos de crimes comuns no Esquadrão da Morte.


Conversas gravadasNo decorrer de nove tardes passadas, entre junho de 2011 e janeiro deste ano, em seu apartamento no Brooklin, no 13º andar de um prédio de classe média alta, aprendi a escutar com paciência os “causos” que “doutor Paulo” narra com humor feroz, até extrair informações relevantes. Repetidas vezes eu as confrontava com livros e documentos e voltava a inquiri-lo; a proposta era que ele se responsabilizasse pelo que dizia.


De certo modo, meu embate com o “doutor Paulo” antecipava as dificuldades que serão enfrentadas pela Comissão da Verdade, a ser instalada em abril para apurar fatos e responsáveis – sem punição penal prevista – pelas violações de direitos humanos cometidas pelo Estado entre 1946 e 1988, abrangendo o período da ditadura militar. O objetivo da comissão é devolver aos cidadãos brasileiros um passado que ainda não se encerrou, como provam os desaparecidos, e impedir que funcionários públicos sigam mantendo segredo sobre atos praticados a mando do Estado.


A fragilidade da lei em pontos cruciais, porém, provoca ceticismo nas organizações de direitos humanos, em especial ao permitir o sigilo de depoimentos – ferindo o direito à transparência pública –, e ao não prever punições aos responsáveis pelos crimes, nem mesmo medidas coercitivas para os que se recusarem a depor.


“Não vou depor. Acho bobagem”, diz Bonchristiano. “Nunca pratiquei irregularidades, mas não sou dedo duro e não vejo utilidade nessa comissão”, justifica o funcionário público, aposentado aos 53 anos, e que recebe hoje 11 mil reais por mês de pensão.


Minhas conversas com Mr. DOPS renderam 15 horas de gravação que revelam a mentalidade e as conexões políticas dos policiais que atuaram na repressão do governo militar. E provam que os detentores das informações estão por aí – embora continuem ocultando as circunstâncias exatas em que os crimes foram cometidos e os mandantes de cada um deles.


Torturadores e repressoresO nome de Bonchristiano – que significa “bom cristão” e veio de Salerno, Itália – não consta das principais listas de torturadores compiladas por organizações de direitos humanos.


O Projeto Brasil Nunca Mais, um extenso levantamento realizado clandestinamente entre 1979 e 1985 com base nos IPMs (inquéritos policiais militares), é até hoje a principal referência, embora muitas vezes liste apenas os “nomes de guerra” dos torturadores, já que os reais eram desconhecidos das vítimas.


No tomo II, volume 3, “Os funcionários”, Paulo Bonchristiano é citado oito vezes em operações de repressão. Mas seu nome também não consta da chamada Lista de Prestes, de 1978, liberada recentemente pela viúva do líder comunista, que traz vários nomes completos e os cargos de 233 torturadores denunciados por presos políticos – entre eles 58 policiais do DOPS de São Paulo, 21 deles delegados.


As lacunas dessa história, porém, não permitem descartar a revelação de novos nomes. Entre 1968 e 1976 – o período mais duro da ditadura –, as torturas faziam parte do cotidiano de todos os policiais e militares envolvidos na repressão. O DOPS era “manejado pelos militares como um órgão federal”, como observa o jornalista Percival de Souza no livro “Autópsia do Medo”, do qual o Paulo Bonchristiano participa como fonte e personagem, qualificado como “um dos delegados mais conhecidos do DOPS”.


Nas entrevistas à Pública, o ex-delegado resistiu duas tardes inteiras antes de admitir que se torturava e matava no “melhor departamento de polícia da América Latina” – o que hoje qualquer cidadão pode constatar através dos depoimentos reunidos no “Memorial da Resistência”, museu que desde 2002 ocupa as antigas instalações do DOPS, no centro de São Paulo.


Nem mesmo o fato de Sérgio Fleury ter se celebrizado como torturador impediu Bonchristiano de tentar isentar o órgão: “O Fleury era do DOPS e não era do DOPS, era o homem de ligação do DOPS com os militares, era delegado das Forças Armadas, do Alto Comando. Não obedecia a ninguém, interrogava presos no DOPS, no DOI-CODI, em delegacias, sítios, no país inteiro. Todo o segundo andar do DOPS era dele, tinha que telefonar antes: ‘Fleury eu vou descer pra falar com você’. Se não, a gente não entrava. Ele tinha uma porta lá, todo misterioso”.


Bonchristiano ainda se lembra, e muito bem, das antigas desavenças com o ex-colega. “O Fleury estava em todas, se metia em tudo, perdi muitos ‘tiras’ para ele porque lá eles ganhavam mais, tinha um ‘por fora’”, contou na segunda entrevista. “Uma vez prendi um cara em um aparelho no Tremembé, e quando estava chegando no DOPS, o Fleury pediu o preso emprestado, não lembro o nome dele. Depois de dois dias sem notícias do preso, fui perguntar para o Fleury, e ele me pediu desculpas, tinha matado o cara que eu nem ouvi”, relata, como se fosse um contratempo na repartição. “Chegou uma hora que só ele que dominava. Só se falava dele”.


“Graças a Deus só se fala no Fleury”, reagiu dona Vera, a elegante senhora com quem o ex-delegado é casado há 53 anos, que entrava na sala trazendo refrigerantes. E emendou: “Zé Paulo, essa entrevista já não está durando demais?”, frase que ela repetiria muitas vezes depois.


Foi na terceira entrevista – quando já acumulávamos seis horas de gravação – que o “doutor Paulo”, sem dona Vera na sala, finalmente confirmou que “sabia de tudo” o que acontecia no DOPS. E se “justificou”: “Eu não podia fazer nada, isso era com o pessoal de lá de cima. Eu era delegado de segunda classe, respondia apenas ao diretor do DOPS, o resto era com eles”.


Bonchristiano tornou-se delegado de 2ª classe em 1969 e foi promovido “por merecimento” a delegado de 1ª classe em 1971. Naquele mesmo dia, admitiu que frequentava os outros centros de tortura montados em São Paulo a partir de 1969, como a OBAN (Operação Bandeirante)  e o DOI-CODI, comandados pelo Exército e compostos de policiais civis e militares instruídos a torturar. Só no período de 1970 a 1974, a Arquidiocese de São Paulo reuniu 502 denúncias de tortura no DOI-CODI paulista, apelidado jocosamente pelos policiais de “Casa da Vovó”.


Bonchristiano disse então que “alguns da diretoria do DOPS” participaram da montagem da OBAN – “os militares não entendiam nada de polícia, depois aprenderam” – e que cederam três delegados no início das operações, todos incluídos entre os torturadores na Lista de Prestes: Otávio Medeiros, ligado ao CCC (Comando de Caça aos Comunistas) e à TFP (Tradição, Família e Propriedade), assassinado em 1973 por militantes da resistência armada; Renato d’Andrea, colega de Bonchristiano na Faculdade de Direito da PUC; e Raul Nogueira de Lima, o Raul Careca, ex-investigador subordinado a Bonchristiano e ligado ao CCC, que se tornaria delegado depois.


Levaram também os métodos da polícia, incluindo o pau-de-arara – na origem um cabo de vassoura apoiado em duas mesas, onde os policiais deixavam o preso pendurado por pulsos e tornozelos até que a dor insuportável os fizesse “confessar”.
AAs conversas com 'Mr. Dops' duraram 15 horas, e foram gravadas em seu apartamento. (Foto: Julia Rodrigues)
“O pau-de-arara não é, assim, uma tortura, vai tensionando os músculos, se o cara falar logo não fica nem marca, mas se o cara for macho e segurar…”, explicou-me ele certa vez. Diante de minha expressão escandalizada, concedeu: “choques, sim, dependendo”. E completou: “Naquela época foi diferente, o governo estava tentando melhorar o país. Aí nós tivemos que fazer essa luta. Nunca considerei os comunistas bandidos, considerava ideologicamente inimigos. Tanto que eu sempre falei, não poderia haver mortes”.


Bonchristiano disse que frequentava a OBAN e o DOI-CODI para “buscar presos, não para levar”, buscando distanciar-se das mal afamadas equipes de captura da OBAN, que realizavam prisões ilegais. Alguns eram soltos sem que sua passagem nos órgãos policiais fosse sequer registrada; outros eram enviados para os cárceres do DOPS, onde assinavam as “confissões” e tinham a “prisão preventiva” decretada.


“Maçã Dourada”, os paramilitares e o DOPS Em seus primeiros anos no DOPS, Bonchristiano se especializou em infiltrações em movimentos sindicais, mas a partir de 1968 os estudantes se tornaram prioridade. “Quem faz revolução é estudante, operário faz revolução na Rússia”, costumava dizer.


Uma das operações das quais mais se orgulha, que o levou às páginas de revistas e jornais, foi o desmantelamento do Congresso da União Nacional dos Estudantes em Ibiúna, em 12 de outubro de 1968, comandado por ele. “Prendi 1263 estudantes sem disparar um tiro”, diz – embora os policiais do DOPS e da Força Pública de Sorocaba tenham comprovadamente anunciado sua chegada com rajadas de metralhadora para o ar. “Coloquei a garotada em 100 ônibus cedidos pela (viação) Cometa e levei todo mundo para o DOPS. Separei os líderes e liberei o resto para ir para casa. Não tínhamos vontade de matá-los, eram estudantes”, ironiza.


Entre os 11 líderes que Bonchristiano mandou para o Forte de Itaipu, em Santos, estão os ex-ministros Franklin Martins e José Dirceu, e o líder estudantil Luiz Travassos, já falecido.


“Eu sabia tudo o que o Dirceu fazia porque ele era metido a galã e eu coloquei uma agente nossa para seduzi-lo”, gaba-se o delegado. “Ela era muito bonita, a Maçã Dourada, e me contava todos os passos dele”, diz o delegado. A “estudante” Heloísa Helena Magalhães, uma das 40 moças contratadas pelo DOPS para esse tipo de serviço, segundo ele, chegou a ser secretária de Dirceu na UNE (na verdade, José Dirceu foi diretor da UEE).


Dias antes, havia acontecido o famoso embate entre estudantes de direita reunidos no Mackenzie e estudantes da Faculdade de Filosofia da USP, na rua Maria Antonia, base de resistência contra a ditadura. Pelo lado da direita, os conflitos foram publicamente liderados por João Marcos Flaquer, fundador do CCC, organização paramilitar idealizada por Luís Antonio Gama e Silva, o jurista que redigiu o AI-5 após se afastar da reitoria da USP para assumir o Ministério da Justiça de Costa e Silva.


Flaquer não era do Mackenzie – estava no último ano de Direito na USP – e dividia o comando dos combates com Raul Nogueira de Lima, o Raul Careca, “tira” do DOPS, subordinado a Bonchristiano. Oficialmente, a polícia só entrou no campus no segundo dia de conflitos, depois que um tiro, atribuído a um membro do CCC, Ricardo Osni, atingiu um estudante secundarista. Mas, segundo Bonchristiano, havia outras forças por trás dos conflitos:


“Foi o João Marcos que fundou o CCC e salvou os estudantes de passarem todos para o comunismo, por isso os americanos também gostavam dele”, diz o ex-delegado. “Ele tinha uma capacidade fabulosa, era forte demais, um cara fora de série, muito meu amigo. Eu o conhecia desde o segundo ano da faculdade, ele queria ser delegado mas a família dele era muito rica e não o queria metido com polícia, então ele vinha para o DOPS comigo. Ele dirigia toda essa parte de estudantes, infiltrava gente entre os esquerdistas. Se tinha alguma coisa que interessava ao DOPS, ele fazia. Mas só com minha anuência”, gaba-se o ex-delegado, que diz participado do planejamento do conflito.


O CCC começou com cerca de 400 membros e chegou a reunir 5 mil homens – boa parte deles militares e policiais. Andavam armados, espancavam estudantes e artistas que se opunham à ditadura e seus atentados mataram pelo menos duas pessoas.


João Marcos Flaquer, Ricardo Osni, João Parisi Filho e José Parisi, “estudantes” do CCC, eram colaboradores do DOI-CODI e constam da lista de torturadores do Brasil Nunca Mais.


Os dois primeiros, bem como o mentor Gama e Silva, também participavam de encontros que reuniam policiais da CIA e do DOPS. “A especialidade da CIA era fomentar organizações paramilitares como o CCC. Acho bem possível que eles recebessem, além de apoio, dinheiro”, diz a socióloga Martha Huggins, da Tulane University, New Orleans, pesquisadora de programas de treinamento de policiais estrangeiros pela CIA.


Afinidades eletivas: o DOPS e a CIABacharel de Direito pela PUC-SP, filho de uma farmacêutica e um bancário, José Paulo Bonchristiano não entrou na polícia política por acaso. Ele e a turma de amigos da faculdade – seis deles futuros delegados do DOPS – eram anticomunistas viscerais e católicos conservadores, e representavam a direita no centro acadêmico 22 de agosto.


Esse perfil agradava ao experiente delegado Benedito de Carvalho Veras, que os recrutou em 1957 quando cursavam o último ano de Direito e faziam estágio na polícia. Veras, que se tornaria secretário de segurança do governador Jânio Quadros no ano seguinte, estava à procura de quadros para modernizar a polícia, sob orientação do Programa do Ponto IV – idealizado  pelo presidente americano, Harry Truman, com o objetivo de prevenir a “infiltração comunista”. Isso se traduzia na combinação de ajuda econômica e treinamento das forças policiais dos países da região.


A intenção era “profissionalizar” a polícia brasileira – sobretudo os que lidavam com crimes políticos e sociais – para que barrassem o comunismo sob qualquer governo.


No mesmo ano em que Veras assumia a secretaria de segurança e nomeava Bonchristiano como delegado substituto de polícia, uma deputada (Conceição da Costa Neves, do PTB, que fazia oposição ao então governador Jânio Quadros) denunciava publicamente ter sido vítima de um grampo telefônico. “Foi o primeiro grampo que se tem notícia em São Paulo”, conta o ex-delegado, que conheceu de perto o autor da “inovação tecnológica”, o escrivão Armando Gomide, futuro agente do Serviço Nacional de Informações (SNI). Gomide havia aprendido o “grampo” com os instrutores do Ponto IV, que também forneceram equipamentos para melhorar a qualidade das gravações.


Em 1962, o programa passou a ser dirigido pelo OPS – Office of Public Safety – uma “célula da CIA incrustrada dentro da AID (Agency for International Development, no Brasil, mais conhecida como USAID)”, nas palavras da professora Martha Huggins.


Além de treinar 100 mil policiais no Brasil, a OPS-CIA selecionava policiais e oficiais militares para estudar em suas escolas no Panamá (1962-1964); e nos Estados Unidos, depois que a Academia Internacional de Polícia (IPA) foi inaugurada em 1963 em Washington, funcionando até 1975. No Brasil, o OPS ficou até 1972, quando o Congresso americano começou a investigar as denúncias de que o programa patrocinava aulas de tortura.


A IPA foi um das “escolas” nos Estados Unidos que recebeu Bonchristiano antes mesmo do golpe militar. Dois anos antes – logo depois de ser aprovado no concurso para delegado de 5ª classe, o início da carreira, ele já frequentava a casa do diretor DOPS Ribeiro de Andrade, no Jardim Lusitânia, em São Paulo. “Ele estava sempre de portas abertas para nós, ficávamos lá conspirando”, ironiza.


Foi ali que Bonchristiano conheceu o policial americano Peter Costello, que veio para o Brasil em 1962 como instrutor da OPS depois de treinar 2.500 homens em técnicas de controle de distúrbios na Coréia. “Era um sujeito austero, falava português e entendia de polícia, deu curso de algemas, tiro rápido e outros para os policiais do DOPS, conta, completando: “Alguns meninos do CCC também participaram”.


Antes de 1964 os delegados do DOPS já contavam com a ajuda dos americanos para identificar os “comunistas”, muitos deles presos logo depois do golpe. “A ordem que a gente tinha desde o começo era identificar e prender todos os comunistas. Queríamos acabar com o Partido Comunista”, diz Bonchristiano.


Para contribuir com essa missão, “o Ponto IV nos contemplou com fotografias dos frequentadores (brasileiros) dos cursos de guerrilha na China”, relatou Renato d’Andrea, um dos delegados que foram da turma de Bonchristiano na PUC, ao jornalista Percival de Souza.


Na primeira operação importante que Bonchristiano realizou no DOPS, em abril de 1964, foi a vez de retribuir, entregando aos americanos as 19 cadernetas apreendidas na casa do líder comunista Luiz Carlos Prestes. As cadernetas foram xerocadas nos Estados Unidos (aqui ainda não existia o xerox) e retornaram 15 dias depois para o Brasil, servindo de base para a prisão de diversos militantes comunistas.


Só sobraram as cópias das cadernetas de Prestes, hoje nos arquivos do DOPS – os originais, segundo o “doutor” Paulo, desapareceram. Por aqui as cadernetas serviram de base a um dos maiores IPMs da primeira fase da ditadura, e foram usadas como justificativa para a prisão de diversos militantes comunistas como Carlos Marighella, que o próprio Bonchristiano foi encarregado de conduzir a São Paulo, depois que ele havia sido preso e baleado em um cinema no Rio, em 1964. Solto em 1965, Marighella foi assassinado em uma emboscada de policiais do DOPS em 1969.


“É uma bobagem danada dizer que a CIA mandava no DOPS, que nós éramos agentes da CIA, não era nada disso, nós éramos delegados do DOPS”, resmunga o doutor Paulo. “A América do Sul sempre foi o quintal dos Estados Unidos, e eles olhavam muito para nós, tinham medo do Brasil se tornar comunista. E notaram que tinha um departamento de polícia em São Paulo que trabalhava firme nisso. Porque o DOPS de São Paulo fazia todos os levantamentos que conduzissem a algum elemento do Partido Comunista em todo o Brasil, na América Latina inteira”.


Mr. Dops e Mr. Bond“Depois que o presidente Truman criou a CIA, era a CIA que acompanhava o movimento dos subversivos”, continua. “Então trabalhávamos juntos, viajávamos juntos em muitos casos, mas nossas reuniões eram fora do DOPS, na happy hour de bares de hotéis como o Jandaia e o Jaraguá, no centro de São Paulo. O Fleury também ia, o Flaquer, o Gama e Silva e até o Carlos Lacerda (ex-governador do Rio, que conspirou pelo golpe e acabou sendo cassado em 1968). O Niles Bond era chefe lá deles, sujeito bacana, conhecia bem o Brasil, e gostava muito de mim. Me chamava de Mr. Dops, porque eu sempre o atendia em tudo que precisava e era ele que me mandava para Langley”, frisa mais uma vez, mostrando uma foto sua com trajes de George Washington ao lado de um colega fantasiado de soldado federalista, tirada durante uma de suas estadas em Washington (FOTO).


“Não lembro quando foi tirada porque estive oito vezes em cursos de treinamento nos Estados Unidos (entre 1963 e 1970)”, diz ele. “Fiz cursos técnicos, de polígrafo, técnicas de inteligência, infiltração. E sobre o comunismo também, eles tinham verdadeira obsessão. Saí de lá convencido de que eles, sim, são duros, fazem o que for preciso para garantir seus princípios”.


Entre 1959 e 1969, Niles W. Bond foi adido da embaixada no Rio e cônsul geral em São Paulo, segundo seu currículo na Association for Diplomatic Studies and Training, que também aponta a ligação com a CIA desde 1956, quando era assessor político da embaixada italiana.


Langley, frequentemente usado como sinônimo de CIA nos Estados Unidos, é o nome dos arredores da pequena cidade de McLean, na Virginia, onde desde o início da década de 1960 ficam os “headquarters” da agência de inteligência americana, a alguns quilômetros de Washington.


Com o tempo, descobri que quando o doutor Paulo se referia a Langley, significava que estava em treinamento em instalações na CIA, não apenas na sede, mas “em muitos outros lugares, até na Flórida”, como confirmou depois.


As informações sobre a CIA foram reveladas por doutor Paulo quando o inquiri sobre sua transferência, em 1ª de setembro de 1964, para o Ministério da Guerra, lotado no II Exército – informação que obtive checando todas as suas nomeações, transferências e promoções no Diário Oficial (seu currículo oficial omite essa significativa passagem).


Ele diz que foi transferido porque havia sido encarregado (com mais três delegados) de montar um plano de estruturação da Polícia Federal pelo general Riograndino Kruel, irmão do comandante do II Exército, Amaury Kruel (ambos também treinados nos Estados Unidos): “O Edgar Hoover (fundador do FBI) é um cara que admiro muito, e os americanos achavam muito importante montar uma polícia como essa no Brasil – o DOPS paulista já atuava como polícia federal, mas era subordinado à secretaria de segurança estadual, o que atrapalhava nossos movimentos”, explicou.


Até hoje a Polícia Federal registra seus agradecimentos à “revolução de 1964” no site oficial da entidade: “Somente em 1964, com a mudança operada no pensamento político da Nação, a idéia da criação de um Departamento Federal de Segurança Pública, com capacidade de atuação em todo o território, prosperou e veio a tornar-se realidade”.


O capitão americano e a guerrilheira“Felizmente aqui no Brasil não fizemos como em outros países, matanças. Não houve isso. Houve só morte de quem quis enfrentar a polícia. Isso em qualquer lugar do mundo. Quando uma guerrilha deles lá, um aparelho, matou o nosso colega lá em Copacabana, o Moreira, o que nós tinhamos que fazer? Descobrir os caras e matar também”, ri. “Polícia é assim”, avalia o “doutor” Paulo.


Dulce de Souza Maia, militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) sentiu na carne o peso dessa vingança, quando foi presa na madrugada do dia 25 de janeiro de 1969, enquanto dormia na casa da mãe.
Na sala de aula da IPA, a academia da CIA em Washington, antigos alunos assistem ao curso destinado a oficiais …
Dois dias antes, vários líderes da VPR tinham sido presos e os repressores já sabiam que ela havia participado de um atentado a bomba no II Exército, que matou o sentinela Mario Kozel Filho. Também havia sido erroneamente apontada como uma das autoras do atentado que em 1968 matou o capitão do Exército americano, Charles Chandler, acusado pelos guerrilheiros de dar aulas de tortura no Brasil a serviço da CIA.


Dulce não sabe dizer se todos que a torturaram no quartel da Polícia do Exército eram militares, mas sua lembrança mais forte é a cara redonda do homem que a estuprou, depois de dar choques em sua vagina. “Eu aguentei 48 horas”, me disse, por telefone. “Depois acabei dando um endereço de um apartamento que eu conhecia porque tinho ido a uma feijoada, não era um aparelho”.


Foi então levada para o DOPS, metida em uma viatura com uma equipe de policiais dos quais não sabe o nome: “Nem lembro das caras, estava quase morta, sei que eles me levaram para a rua Fortunato e apontei o prédio que só reconheci porque tinha parado o meu carro na frente no dia da feijoada – eu não sabia que o João Leonardo, que inclusive era de outra organização (ALN), morava ali. Lembro só que o vi quando a porta abriu”, lamenta.


A versão do delegado Bonchristiano sobre o mesmo episódio omite detalhes significativos. “Nós estávamos atrás dos caras que mataram o Chandler, coitado, executado na porta da casa dele, no Sumaré. Em 36 horas, o Cara Feia, um tira excepcional que já morreu, sabia quem tinha feito. Aí, uma menina que nós prendemos, nos conta de uma reunião na Rua Fortunato, perto da Santa Casa da Misericórdia. Eu fui com a menina. Mandamos ela tocar a campainha. Peguei o professor que era o dono do apartamento, prendemos”, contou. “Voltamos para o DOPS, eu, Tiroteio, Cara Feia e a menina e deixei dois tiras, o Raul Careca e o Nicolino Caveira, para ver se acontecia mais alguma coisa. Telefone. ‘Doutor, o senhor tem que vir aqui, teve um problema’. ‘Muito problema?’ ‘Demais’, quando é demais é que houve morte. Quando cheguei lá, tinha sangue para todo lado. O Raul Careca, que era um ótimo atirador, tinha dado 18 tiros no Marquito (Marco Antonio Brás de Carvalho). Aí que eles me contaram o que tinha acontecido: esse que matou o Chandler tinha chegado e quando abriu a porta, falou assim: “Quem são vocês?” E os tiras: “Nós somos da família”. “Ah é?” E puxou a arma. Os tiras revidaram e ele morreu”.


Bonchristiano jamais mencionou que a “menina” estava quebrada pela tortura. Mas corrigiu a versão que consta do depoimento de Raul Careca em um processo movido pela família de Marquito. Ali ele dizia que foram dois os tiros disparados.


Mano nera“O caso Chandler gerou consternação, mas, sobretudo preocupação entre o grupo de assessores policiais, pois estes poderiam tornar-se alvo também. Participaram das investigações e ajudaram a identificar as armas utilizadas, enviando o material para estudo em laboratórios de criminalística do FBI”, relata o professor Rodrigo Patto, da UFMG, que estuda a relação entre a USAID e a CIA.


Patto, porém, não sabe dizer se Chandler era de fato da CIA como acreditavam os militantes da ALN e da VPR que decidiram matá-lo. “Ele havia estado no Vietnã, e estava oficialmente em viagem de estudos no Brasil”, diz.


Em seguida ao assassinato de Chandler, um ex-instrutor americano de Bonchristiano, Peter Ellena, veio para o Brasil para acompanhar as investigações, o que melindrou o pessoal do DOPS. “Demos para ele a mano nera (símbolo da máfia), a mão negra ensaguentada”, diverte-se, contando que os policiais simularam um bilhete de ameaças dos guerrilheiros para assustar o “gringo”. “Ele ficou morrendo de medo”.


O jornalista Percival de Souza relata que o DOPS produzia relatórios confidenciais diários sobre o caso para o consulado americano, e que descobriram o fio da meada que os levaria a Marquito, “menos de um mês depois do fuzilamento”, registrando em seguida a versão que Bonchristiano continua a defender: um acidente ocorrido na BR-116 no dia 8 de novembro de 1968, na altura de Vassouras (RJ), teria matado Catarina e João Antonio Abi-Eçab que estava em um fusca.


Ao socorrer o casal, a polícia teria encontrado uma metralhadora INA calibre 35, como a que matou Chandler. O DOPS foi avisado, e Bonchristiano viajou imediatamente a Vassouras. Lá o delegado teria descoberto que o casal, militante da ALN, teria ido ao Rio de Janeiro para encontrar Marighella, e que a metralhadora era a mesma que matou Chandler. Tinha encontrado a arma do crime.


O “teatrinho”, como os policiais chamavam as versões criadas para encobrir seus crimes, foi desmontado a partir do relato de um ex-soldado do Exército ao jornalista Caco Barcellos, em 2001, em que reconheceu Catarina “como presa, torturada e morta em um sítio em São João do Meriti (município vizinho a Vassouras)” e afirmou que os órgãos de repressão, após a execução, teriam forjado o acidente.


Mais uma vez a “eficência” do DOPS veio da tortura. Bonchristiano, que insistiu até o fim na desmentida versão, diz que foi cumprimentado por Niles Bond pelo feito. “O Chandler era um dos nossos, frequentava nossas reuniões, o Bond sabia que eu ia resolver o caso”, gaba-se.


Esticadinha no chãoEm 1983, os ventos democratas extinguiram o DOPS e trouxeram um novo delegado geral, Maurício Henrique Pereira Guimarães, que despachou Bonchristiano para uma obscura seção da Secretaria de Justiça, encarregada das viúvas dos soldados mortos na II Guerra. “Preferi me aposentar, hoje não acredito mais em nada. Fiz o que o presidente queria, os militares queriam, e não ganhei nem aquelas medalhinhas que eles davam para todo mundo”, desdenha, referindo-se à Medalha do Pacificador, entregue pelos militares a torturadores famosos.


Mas o Mr. Dops não tem muito do que reclamar. Em seus primeiros oito anos de DOPS subiu da 5ª para a 1ª classe, como só acontecia aos que participavam da linha de frente da repressão. Ficou um tempo na “geladeira” quando um desafeto, o coronel Erasmo Dias, assumiu a secretaria de segurança (1974-1979). Mas conseguiu depois a promoção a delegado de classe especial e se aposentou no topo da carreira, em 1984.


A família, porém, ainda sofre com o passado do delegado. A filha, uma artista plástica, escolheu o prédio do antigo DOPS como cenário de uma performance acadêmica. No Facebook, comenta que o pai ficou “do lado dos algozes da ditadura”, enquanto uma de suas filhas – neta de Bonchristiano –  faz campanha pela Comissão da Verdade em seu perfil.


Dona Vera sente a distância dos netos e lembra com amargura do tempo em que o marido trabalhava no DOPS. Via-se sozinha dias a fio com três filhos pequenos: “Eu não podia falar com ele nem por telefone, ligava lá e me diziam ‘a senhora fica tranquila que ele está bem’”, conta. “E eu, apavorada com as ameaças que a gente recebia por telefone, meus filhos iam escoltados para a escola”, diz.


Ela traz ainda outra lembrança: “Uma vez, minha filha era pequenininha, e quando o Campão, que trabalhava para o Zé Paulo, veio buscá-la para escola, ela desatou a chorar ao ver aquele homão, parecia um índio, vestido de amarelo da cabeça aos pés”, diz.


“Era o meu motorista no DOPS, depois veio me pedir licença para trabalhar com o Fleury, ‘lá a gente ganha mais, né doutor?’ Já morreu, coitado”, interveio Bonchristiano.


José Campos Correia Filho, o Campão, era um conhecido torturador – dos mais cruéis – segundo Percival de Souza, e membro do Esquadrão da Morte. Além de motorista do “doutor”, ele conduzia cadáveres levados do DOPS na calada da noite para desová-los nos cemitérios de periferia, segundo o próprio Bonchristiano.


No final de novembro de 2011, o governador Geraldo Alckmin acatou o lobby da Associação de Delegados de São Paulo (cujo patrono é o falecido delegado Antonio Ribeiro de Andrade, o primeiro chefe de dr. Paulo no DOPS) e mandou para a Assembléia Legislativa um projeto de lei que equipara as carreiras de delegados de polícia, procuradores e promotores, sob o argumento de que a polícia civil é judiciária, e portanto deve ser ligada ao Poder Judiciário e não à Secretaria de Segurança Pública.


O projeto, que o “doutor” Paulo muitas vezes defendeu em nossas entrevistas, faria sua aposentadoria pular dos atuais 11 mil reais para cerca de 20 mil reais, de acordo com os cálculos que ele mesmo fez.


A partir do momento em que o acalentado projeto foi enviado para a Assembleia, o ex-delegado resolveu encerrar nossas conversas.


Retornei uma última vez a seu apartamento, em janeiro deste ano, para checar alguns dados e ele deixou escapar o trecho de uma conversa que tive com um dos meus filhos, por celular. Estava disposto a me assustar.


Na despedida, preveniu-me mais uma vez sobre o “perigo” que “nós dois” estaríamos correndo se eu levasse adiante qualquer investigação sobre a localização dos corpos desaparecidos, advertência que fez desde a primeira entrevista. Perdi a paciência: “Mas, doutor, quase todo mundo que o senhor conheceu naquela época já morreu! Nós vivemos em uma democracia, ninguém vai matar assim um jornalista ou um delegado aposentado”.


“Isso é o que você pensa”, retrucou. “Os que hoje ocupam os cargos daqueles, antigos, também assumiram o compromisso de proteger o pacto”, afirmou. “Não tem isso de democracia, minha cara jornalista, eles fazem o que precisa ser feito. Se alguém é atropelado ou baleado no trânsito, é uma coisa que acontece, em São Paulo. Não quero ver você esticadinha no chão”.


Quando entrei no taxi para ir embora, refletindo sobre quem afinal estaria ameaçando quem, lembrei de uma ocasião em que nossas relações eram mais amistosas e pude lhe perguntar por que “eles” tinham enterrado os corpos, em vez de atirá-los ao mar ou incendiá-los para apagar definitivamente as provas.


De pé, na sala decorada com os estofados confortáveis, rodeados por mesinhas enfeitadas com fotos de família e bibelôs de inspiração religiosa, Bonchristiano reagiu: “Nós somos católicos, pô!”.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Filme Francês no Festival de Berlim: O povo é matéria inflamável






14/2/2012 13:21, Por Brasil de Fato


Do Correio do Brasil


O filme francês “Adeus à Rainha” retrata os últimos dias da rainha Maria Antonieta


14/02/2011


Rui Martins, de Berlim (Alemanha)




O filme francês “Adeus à Rainha”, que abriu o Festival Internacional de Cinema de Berlim, mostrando os últimos dias da rainha Maria Antonieta, no Palácio de Versalhes, tem duas frases antológicas, ao tratar da Revolução francesa – o povo é uma matéria inflamável e o povo não quer só pão quer também o poder.






Filme “Adeus à Rainha” – Foto: Reprodução






Benoit Jacquod, no encontro com a imprensa, reconheceu a coincidência do filme com a situação de fim de ditaduras em países africanos com a Primavera Árabe.






“Os fins de reinados se parecem, disse Benoît Jaquod. Ou seja, os detentores do poder, se agarram quase por necessidade pois seria quase impossível agir diferente. Sejam eles quem for, não importa a ideologia ou a classe da qual tenham saído. Portanto, todo fim de reinado e sobretudo o último dia, o de pânico, pois é disso que trata o filme, de um naufrágio muito rápido num clima de pânico. Desde o passado remoto até agora, tais situações têm traços comuns que podemos identificar como representadas como filme. Deve-se também dizer que para a França e para a Europa, aqueles dias de reviravolta foram decisivos”.






“Não se poderíamos dizer que esse filme trata de classe contra classe, mas o tema é evocado”, diz Benoît Jacquod.






“Um aspecto interessante que eu queria destacar era esse de Sidonie e a própria rainha não terem consciência do momento que estão vivendo.e isso me parece acontecer nestes nossos dias, mesmo no pós 11 de setembro, cuja tomada de consciência tomou tempo para ocorrer. Esse o interesse de um filme de época, como Adeus à Rainha, por permitir analisar a atualidade através do passado” , acrescenta Jacquod.






A rainha Maria Antonieta, cuja frivolidade e desconhecimento do povo levaram-na à guilhotina, é vivida pela atriz alemã Diane Kruger, no seu primeiro grande papel. O filme inspirado num livro de Chantal Thomas é todo filmado no Palácio de Versalhes com corredores, escadas e iluminação precária por velas portadas por pagens.






A rainha, rodeada por damas da corte é camareiras, é vista sob esse ângulo de mulher caprichosa e fútil e tem como uma de suas preferidas, a servidora que lhe faz a leitura, é a jovem Sidonie Labord, vivida por Léa Seydoux. Naquele ano de 1789, quando as notícias tardavam para chegar, Sidonie ouve falar da revolta popular, iniciada no 14 de julho, e na próxima chegada a Versalhes da revolução, mas ela não se identifica com os servidores que, pouco a pouco, fogem e abandonam o Palácio. Sidonie quer servir a rainha como súdita fiel.






Enfim, na confusão daqueles últimos dias, a rainha, que se prepara para fugir, intima Sidonie a deixar o Palácio e fugir para a Suíça. A fiel empregada tem, porém, uma decepção – essa fuga não visa protegê-la, mas uma dama da corte com a qual a rainha tem um caso amoroso. Sidonie partirá de carruagem, trajada com as luxuosas roupas da dama da corte e a amante da rainha fará a mesma viagem, vestida com suas roupas de empregada.






Seria lésbica a rainha Maria Antonieta? Esse comportamento da rainha, pouco falado pelos historiadores, teria se propalado depois de sua prisão e morte, numa espécie de vingança póstuma. Em todo caso, verdade ou exagero, o filme não é um documentário e a própria Sidonie é uma personagem fictícia.










terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Racismo no Futebol: Isso é lamentável!!!

Comentário: Lamentável a atitude do jogador Suarez. Não podemos compactuar com atitudes como essa. Abaixo o racismo!!! 

 

Donos e patrocinador do Liverpool mostram preocupação com Luis Suárez

13/2/2012 13:41,  Por Redação, com Reuters - de Londres
Liverpool e Banco Standard Chartered parceiros desde julho de 2010
Os proprietários do Liverpool e o patrocinador da camisa do clube intervieram para ajudar a minimizar uma disputa racial que está prejudicando um dos mais bem sucedidos clubes de futebol inglês. O atacante uruguaio Luis Suárez pediu desculpas no último domingo por não apertar a mão do rival Patrice Evra antes da derrota de seu time por 2 x 1 para o Manchester United, e o técnico do Liverpool Kenny Dalglish também pediu desculpas por sua reação pós-jogo quando contestado sobre o incidente.
Suárez voltava para a formação titular do Liverpool pela primeira vez desde que cumpriu uma suspensão de oito partidas por ter ofendido racialmente Evra durante um jogo em outubro.
O banco Standard Chartered, que paga cerca de £ 20 milhões, cerca de R$ 55 milhões, por temporada para patrocinar o segundo maior campeão inglês, com 18 títulos, foi a público criticá-los em um breve comunicado.
- Estamos muito desapontados com o incidente de sábado e discutimos nossas preocupações com o clube, disse o banco em comunicado.
Os maiores clubes de futebol da Europa são hoje importantes marcas que atraem patrocinadores internacionais e têm fãs em todo o mundo. O Standard Chartered foi atraído para o Liverpool devido à sua base de apoio asiática. O banco tem sede em Londres, mas a maior parte de seus lucros vem da Ásia. A maioria de seus funcionários é de origem asiática, africana ou do Oriente Médio.
A Fenway Sports Group, o grupo norte-americano que comprou o clube em 2010 e que também é proprietário do Boston Red Sox, time americano profissional de beisebol, cobrou que o clube pedisse desculpas. Um porta-voz do Liverpool recusou-se a comentar de que o clube estava sendo pressionado por seus proprietários.
A Associação de Futebol Inglesa, que impôs a proibição original de oito partidas, não agirá contra a recusa de Suárez de apertar a mão porque não é uma questão disciplinar.

Aeroportos: Concessão = Privatização 2

Comentário: Continuo com a opinião de que se o problema dos aeroportos era de gestão a solução passaria por uma reformulação da Infraero. A concessão dos aeroportos representa em certa medida um atestado de incompetência à Infraero. Meus comentários juntamente com a entrevista com o presidente do SINA (Sindicato Nacional dos Aeroportuários) se encontram no link http://emlugardeumacarta.blogspot.com/2012/02/aeroportos-concessao-privatizacao.html

Posto esse texto (muito bem escrito) de Antônio Lassance do Correio do Brasil que é um contraponto a minha opinião. É claro que as diferenças entre os petistas e os tucanos são muito grandes, AINDA.  Fico com os 2 pés atrás quando Lassance argumenta sobre a metamorfose ambulante petista. Eu particularmente, como fã de Raul Seixas, acredito que todos nós temos que preferir "ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo". No entanto, alguns princípios devem ser preservados para que a metamorfose ambulante não se torne mimetismo camaleonino. A solução era de fato a concessão? Será que ações como esta não nos conduzirão para a minimização do Estado? Esse é um bom debate que deve tomar algum tempo de todos nós. Ratifico a opinião de que o caminho era fortalecer a Infraero.

Do Correio do Brasil

Sem medo do martelo

13/2/2012 14:56,  Por Antonio Lassance
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Leilão na Bovespa
Leilão dos aeroportos de Guarulhos, Campinas e Brasília realizado na Bolsa de Valores de São Paulo, Bovespa
No debate sobre o leilão dos aeroportos, o PT precisa assumir a defesa do que fez se é que está seguro do que fez. Ao balbuciarem argumentos frágeis e se constrangerem diante da opinião pública, em uma postura defensiva, muitas de suas lideranças demonstram não ter clareza de para onde sua metamorfose ambulante os está levando.
As concessões foram transformadas em algo espetacular, o que foi facilitado pela imagem da batida dos martelos. Mas o PT não está dando nenhuma guinada. O leilão foi absolutamente coerente com o modelo que suas duas presidências, Lula e agora Dilma, montaram e têm posto em operação na relação entre o setor público e o setor privado para uma estratégia de desenvolvimento.
Ficou patente que as marteladas constrangeram alguns petistas, ao ponto de parecerem atingidos nos dedos. Para se defenderem, usaram um argumento frágil, que é um remendo, um esparadrapo para cobrir o dedo dolorido: são concessões, jamais privatizações.
É verdade que não houve venda de patrimônio público. Ninguém proferiu a palavra mágica “vendido”. Isso de fato faz muita diferença. Mas as concessões são a entrega de serviços à gestão privada. É uma forma de privatização sim, e o PT deveria parar de dizer que se trata de outra coisa. Ninguém acredita.
Os tucanos se refestelaram e relaxaram com a cena. Mas, ao tentarem igualar o leilão dos aeroportos ao que foi a privatização da telefonia, da Vale, da CSN e tantas outras estatais, quase nos levam a crer que a própria Infraero foi leiloada. Mas não foi, e continua valendo o ditado, ‘uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa’.
Algumas informações básicas simplesmente desapareceram, tanto entre os que criticam, quanto entre os que dão vivas à operação. A gestão dos aeroportos pelas empresas privadas irá gerar recursos que irão para o Fundo Nacional de Aviação Civil. Os trabalhadores da Infraero têm garantia de estabilidade no emprego. A Infraero detém 49% de participação nos consórcios ganhadores e poder de veto sobre as decisões. Ela passa a se associar a grupos privados, doravante, como a Petrobrás tem feito na exploração do pré-sal, como os Correios fazem com o Bradesco, como a Caixa sempre fez com as lotéricas, como o Banco do Brasil sempre fez com a Visa e a Mastercard. Ou seja, quem hoje ri dos leilões está rindo atrasado. A piada já foi contada faz tempo.
Ao mesmo tempo, é preciso que fique claro que os críticos do leilão estão, na prática, defendendo que o Estado faça questão de arcar com 100% do anúncio que diz “a Infraero informa”, do painel com os horários de vôo, da conta da limpeza dos banheiros, dos funcionários terceirizados que conferem os bilhetes de passagem na entrada dos portões de embarque, do carregamento das malas, dos guichês de informação, e, claro, das obras de ampliação. Qual a “razão de Estado” desses serviços, mesmo que eles sejam essenciais a qualquer aeroporto?
Os tucanos saboreiam uma vitória de Pirro. Comemoram algo que deveria preocupá-los. Ao aplaudirem a operação e ironizarem o governo, mais uma vez escondem a bandeira que os diferenciava: a da venda do patrimônio público e desencargo do Estado com determinadas áreas, passando-as para o pleno domínio empresarial. Abdicam de mais um assunto de sua pauta, quando, a rigor, deveriam estar defendendo a venda dos aeroportos e externar insatisfação com as meras concessões e com o poder da Infraero sobre os consórcios vencedores. De novo, o liberalismo brasileiro se esquivou de colocar a cara a tapa.
Partidos egressos de dissidências do PT, como o PSOL e o PSTU, também estão comemorando o que a eles parece uma desgraça. Mas terão o ônus de defender antigo “status quo” do sistema aeroportuário, num momento em que o transporte aéreo se popularizou e a crítica ao seu desempenho se intensificou.
Quando Lula enfrentou Alckmin em 2006, empunhou a bandeira da defesa do patrimônio público, contra a privatização. O candidato tucano se viu obrigado a aparecer usando um boné do Banco do Brasil e vestindo macacão com as marcas da Petrobrás e dos Correios. O debate a favor e contra a privatização não era genérico, e sim específico. Tinha o nome e o endereço de cada uma das estatais acima referidas. Fazia todo o sentido, pois, no último ano da presidência FHC, em 2002, o Ministério da Fazenda oficialmente falava na necessidade de uma nova etapa do programa de privatizações e citava algumas dessas empresas como alvos imediatos.
O poder público todo dia bate o martelo, ou seja, leiloa a compra de serviços. Dos clips aos cartuchos para impressoras, do lápis aos computadores, da terceirização da vigilância aos serviços de recepção e limpeza. Garantir a propriedade pública e a operação estatal pode até ser um alívio para a consciência de muitos, mas o debate econômico sobre o papel do Estado na economia vai, além disso.
A questão essencial é sobre a relação do Estado com o setor privado para uma estratégia de desenvolvimento. O uso de recursos do BNDES em apoio às multinacionais brasileiras e aos grandes projetos de infraestrutura, o papel dos bancos públicos para o crédito à produção, os fundos de fomento à inovação, a contratação privada de serviços de saúde com recursos do SUS, a utilização de instituições privadas como complemento ao ensino superior e técnico, a lei de incentivo à cultura, entre tantos outros, são temas que mereceriam atenção redobrada. Sem precisar da cena do martelo, tudo isso já está posto. Em todos os casos, há bons exemplos e grandes problemas nessa relação.
O governo não está abandonando seu programa, nem dando nenhuma guinada. Qual a incongruência na concessão de aeroportos, se já se fazia concessão de rodovias? Qual o problema do modelo adotado para os consórcios dos aeroportos, com dinheiro do BNDES e com a associação entre empresas estatais e empresas privadas? Ele já vinha sendo adotado para as maiores obras de infraestrutura do PAC. Tal trajetória não começou na semana passada.
Que o PT abandonou muitas de suas teses do passado é absolutamente verdade. Em 1990, o PT já não era mais aquele dos anos 80. E o governo Dilma não é o governo Lula. A metamorfose ambulante continua sendo uma das características do PT. Mas, até aí, nenhuma novidade. Todas essas mudanças foram exaustivamente anunciadas, eleição após eleição. O debate não é se o PT está ou não mudando, é sobre para onde essa trajetória tem levado o Brasil. Neste ano, já poderemos fazer o balanço de uma década de mudanças consolidadas ou ainda em curso, e seus respectivos resultados e dilemas.
O martelo, neste momento, tem o efeito da varinha dos mágicos: desviar o olhar para o que deveria ser o centro de nossa atenção, ou seja, o coelho que está saindo de dentro da cartola.

Ricardo Teixeira fora da CBF

Comentário: Talvez alguns perguntem: e eu com isso? Mas pra quem gosta de futebol essa notícia é auspiciosa, trata-se de tirar um crápula do comando do futebol brasileiro. O pior é que quem entra no lugar é um cara que por enquanto só tá roubando medalhas, o tal do Marin. O problema é se o Fred Krueger (Andres Sanchez) assumir a CBF. 

 

Do Diário Lance

Fontes admitem saída de Teixeira do COL e da CBF

Dirigentes e pessoas ligadas à Copa não descartam a renúncia do dirigente nos próximos dias


Ricardo Teixeira (Foto: Nacho Doce/Reuters) Ricardo Teixeira poderá deixar em breve o comando da CBF (Foto: Nacho Doce/Reuters)
Amélia Sabino e Daniel Leal
Publicada em 14/02/2012 às 08:00

Rio de Janeiro (RJ)
Se há meses a renúncia de Ricardo Teixeira das presidências da CBF e do Comitê Organizador Local do Mundial de 2014 (COL) provocava risos entre amigos e aliados do cartola, hoje a situação é distinta. O LANCENET! ouviu dirigentes e representantes ligados à Copa e atestou: o deboche deu lugar à cautela na abordagem do tema.
Hoje ninguém nega veementemente a possibilidade de Teixeira deixar os cargos. Nem mesmo Rodrigo Paiva, diretor de comunicação da CBF, que antes rechaçava a informação. Nos últimos dias, diversos blogs passaram a dar como certa a renúncia que ocorreria ainda esta semana.
– Oficialmente, não sei de nada. Durante toda a semana passada, nem se cogitava isso. São boatos, mas, se o jornal está colocando, vamos aguardar as próximas semanas ou meses. Tem de perguntar para o presidente – disse na segunda-feira o diretor de seleções da CBF e amigo de Teixeira, Andrés Sanchez.
Segundo o estatuto da CBF, caso Teixeira renuncie, o vice mais velho assumiria. Este é José Maria Marin, ex-presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF).
Marin foi indicado para ocupar interinamente o comando da CBF por cerca de 40 dias, entre dezembro e janeiro deste ano. Teixeira se ausentou para cuidar da saúde. Presidentes de federação acreditavam que o afastamento era definitivo.
Segundo um dos mandatários, Marin – aquele que embolsou uma medalha do Corinthians na final da Copa SP – passou a cuidar da administração da entidade desde então, mesmo após o fim da licença.
– Marin teria condição (de assumir a CBF), é muito experiente. Tem nosso aval – afirmou o presidente da Federação Cearense de Futebol (FCF), Mauro Carmélio, que acompanhou Teixeira durante viagem a Assunção, na semana passada.
A mudança não foi a única na estrutura da CBF nos últimos meses. Em novembro, o então presidente do Corinthians, Andrés Sanchez, foi nomeado diretor de seleções. O cartola é considerado um dos favoritos para suceder Teixeira.
No COL, Teixeira nomeou Ronaldo como membro do Conselho de Administração, tornando-o a face pública da organização da Copa.
Semana passada, Marco Antônio Teixeira, tio de Ricardo, foi demitido do cargo de secretário-geral da CBF. Para um influente presidente de federação, a demissão é sinal de que a renúncia pode estar próxima.
De mudança?
Caso a saída da CBF se concretize, Teixeira também teria mudanças na sua vida pessoal. Segundo duas fontes revelaram à reportagem, o cartola estaria de mudança para sua casa em Miami, nos Estados Unidos.
Desde outubro de 2011, Teixeira tem se desvinculado de negócios da Fazenda Santa Rosa, em Barra do Piraí (RJ). Ele realizou um leilão das cabeças de gado que possuía, e vendeu cerca de 80% do que tinha na propriedade.
Em novembro, fechou o laticínio Linda Linda e começou a demitir os funcionários. As demissões foram progressivas. Entre ordenhadores e funcionários do laticínio, foram mais de 50 dispensas. A fazenda, que chegou a contar com 60 funcionários, hoje só tem sete, responsáveis pela manutenção da sede e de algumas cabeças de gado.
Até o momento, porém, a propriedade não foi colocada à venda. Mas vizinhos afirmam que Teixeira não tem ido ao local. De fato, o chefão da CBF passou o mês de janeiro nos Estados Unidos, onde realizou exames médicos. Sua mulher e sua filha continuam em Miami.
Caso ISL e saúde
O distanciamento de Teixeira da CBF e do COL acontece ao mesmo tempo em que se aproxima a divulgação dos documentos do caso ISL. A extinta empresa de marketing teria pago executivos da Fifa em troca dos direitos de TV da Copa nos anos 90. O brasileiro teria levado R$ 15,5 milhões. Ele nega.
Em dezembro, a Justiça suíça determinou a revelação dos documentos que comprometeriam Teixeira. Para dirigentes de federação, a saída da CBF poderia ser um acordo com a Fifa para impedir a divulgação dos papeis
Teixeira foi investigado pela Polícia Federal por suposto crime de lavagem dinheiro. O cartola poderia ter utilizado uma empresa no paraíso fiscal de Liechtenstein para enviar o dinheiro ao Brasil.
O dirigente também enfrenta problemas de saúde. Em setembro, Teixeira teve uma crise de diverticulite, que o deixou internado num hospital da Zona Sul do Rio.
Perda de poder?
Fifa
Ricardo Teixeira vem sofrendo pressão na Fifa para deixar o comando do COL. No ano passado, o secretário-geral da entidade, Jérôme Valcke, teria pedido à presidente Dilma Rousseff uma indicação para o lugar do cartola.

Caso ISL
A iminente divulgação do caso ISL poderia complicar Teixeira. Segundo a emissora britânica BBC, o brasileiro teria recebido US$ 9 milhões (R$ 15,5 milhões) da extinta empresa de marketing. O dinheiro teria sido remetido ilegalmente ao país por meio da Sanud, empresa baseada no paraíso fiscal de Liechtenstein.

Planalto
Durante o governo Lula, Teixeira teve trânsito livre em Brasília. A situação, porém, mudou com a troca de governo. Dilma não dá abertura ao cartola, que viu o Planalto endurecer as discussões sobre a Lei Geral da Copa. Segundo o Blog do Juca, Teixeira tentou ser recebido duas vezes pela presidente na semana passada, sem sucesso.

Opinião pública
Teixeira foi alvo de grandes manifestações nas redes sociais por sua renúncia da CBF e do COL. Desde o segundo semestre de 2011, o cartola vem se afastando dos holofotes. Em dezembro, nomeou o ex-atacante Ronaldo para, segundo o próprio, ser “a cara” do COL.

Governo
A saída de Orlando Silva Júnior do Ministério do Esporte também prejudicou a relação entre COL e governo federal. O ex-ministro era um dos principais interlocutores entre Teixeira e Planalto. Envolvido em denúncias, Orlando foi substituído por Aldo Rebelo, que vem se mantendo fiel à presidente Dilma.

Leia mais no LANCENET! http://www.lancenet.com.br/minuto/Bastidores-acenam-Teixera-COL-CBF_0_645535616.html#ixzz1mN7SZxvS
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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Urariano Mota: O amestrado Geraldo Vandré

Comentário: Esse texto de Urariano Mota traz luz sobre o que aconteceu com Geraldo Vandré. A metáfora do elefante de circo é uma boa resposta.

Do Direto da Redação/Vermelho




 

Por Urariano Mota*



O leitor Xico Júnior, na coluna passada, pediu um texto sobre Geraldo Vandré. Procurarei atendê-lo agora. Lembro que ao ver a entrevista de Vandré na Globo News, passei dias ruminando. Vinha uma canção íntima, que na década de 70 era senha:

“Eu vou levando a minha vida enfim
Cantando e canto sim
E não cantava se não fosse assim
Levando pra quem me ouvir
Certezas e esperanças pra trocar
Por dores e tristezas que bem sei
Um dia ainda vão findar...
Deixa que a tua certeza se faça do povo a canção
Pra que teu povo cantando teu canto ele não seja em vão”

Que revolução queríamos naqueles anos, quando ouvíamos a canção de Vandré? Que peitos puros guardávamos ainda não provados pela luta? Agora, aparecia na entrevista: um velho de boné, com a insígnia da FAB, cabisbaixo, com o pensamento cheio de interrupções. O diabo era que nesse pensamento falho, ainda assim, sobrevivia uma certa lógica, como naquele louco Hamlet. Havia uma certa memória, montada, como em toda memória,mas, no caso de Vandré, com os cortes cirúrgicos que expurgavam a violência do regime militar.

E houve então a primeira ressalva, ao entrevistador. Ocorre com Geneton Moraes Neto (junto com Vandré na foto) o que é comum em 99% dos repórteres na imprensa do Brasil: eles não entendem nada vezes nada da ditadura. Não é que alguns, pela idade, não tenham passado por aqueles malditos tempos de Médici (por coincidência, o período da volta de Vandré ao Brasil). Alguns viveram, mas a sua experiência é exterior aos perseguidos. Devo dizer, eles não comeram e beberam com e daqueles jovens entusiastas que viviam no limite, clandestinos, entre ruas escuras, promessas de barbárie e bares infectos. Daí que os jornalistas cometam os maiores erros. Eles não têm o conhecimento sofrido da dinâmica.

Pela pesquisa, pelo aprendizado humilde, atento e curioso, poderiam driblar essa impossibilidade da experiência vivida. Mas não, na entrevista parecia que Vandré era autor de duas músicas, Disparada e Caminhando. Pela insistência do repórter nessas canções, parecia. No entanto, há um momento na entrevista em que Vandré refuga, como um cavalo refuga, a seu caráter de compositor engajado. Se o entrevistador houvesse ido além das duas canções, poderia ter lembrado uma canção do senhor de boné, direta como um soco:

“O terreiro lá de casa
Não se varre com vassoura,
Varre com ponta de sabre
E bala de metralhadora....”.

Mas isso ficou oculto das pessoas que viram o compositor pela primeira vez. É possível que houvesse uma pauta prévia, aquela que todo repórter hoje no Brasil tem antes da realidade. A saber, no caso do velhinho: na pauta, havia que mostrar Vandré como um sobrevivente da velha esquerda, recuperado com vivas aos militares. A pauta do escândalo. Nesse particular sentido, a entrevista foi um sucesso. Na verdade, ela nem precisava da presença física de Vandré, bastavam-lhe os elementos essenciais da caricatura: um velho, um boné e a logomarca da Força Aérea Brasileira. O que deveria ser uma revelação do que o regime de 64 fez com um compositor de gênio, transformou-se em uma exibição de paradoxos e ruínas.

Na verdade, Vandré já oferecera antes à imprensa as linhas mestras da sua derrocada. Antes até da sua canção de homenagem à FAB. No coletivo virtual “Os amigos de 68”, uma militante médica, a quem não pedi autorização para divulgar o nome, informou:

“...Foi em torno de 74, quando eu fazia residência no Pinel. Conheci Vandré quando ele foi internado na emergência psiquiátrica da Clínica de Botafogo. Motivo alegado: Vandré estaria ‘armado com uma faca’ e ameaçava matar a sua irmã. Só o vi dias mais tarde, quando tocava violão para os internos no pátio da Clínica. Aparentava ‘tranquilidade’, mas sua fisionomia era de dor. Ele era ouvido com atenção e certa admiração. Sabiam que se tratava de um compositor famoso. Não consigo me lembrar o que tocava. Fiquei muito emocionada e chocada com tudo aquilo. Era o resultado das muitas torturas que ele sofrera na repressão dos anos 60/70...”

Hemingway em “O Velho e o Mar” dizia que é possível destruir-se um homem, mas nunca derrotá-lo. Na entrevista, o que se viu foi um homem ainda em estado de terror, em plena democracia. Nela, Vandré nos lembra os elefantes amestrados, torturados, que levantam a pata para o público no circo. Por isso não sabemos ao fim se o gênio de Vandré foi destruído. Peguemos então um caminho de esperança: Vandré continua nas suas canções, ele não foi derrotado.


*Urariano Mota é jornalista.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Aécio ataca Cuba e esquece Minas

Comentário: Ganhei a semana passada após conversar com uma colega, professora de espanhol, recém-chegada de Cuba que me narrou suas impressões acerca do lagarto verde do Caribe. Tive uma grande satisfação ao ver o seu relato com toda a veracidade vista e sentida in loco. Me recordei da definição de Cuba como sendo "nem o céu, nem o inferno, mas sim um purgatório possível". Ela me falou dos problemas da ilha, dos gestos de solidariedade do povo cubano vistos na chegada no Aeroporto Internacional José Marti, mas acima de tudo da alegria de viver daquela gente, apesar de toda a adversidade. O que me deixou mais feliz foi o fato dessa colega não ser e nunca ter sido socialista. Me lembrei desse fato para comentar a postagem a seguir em que Altamiro Borges mostra bem o cinismo do tucano Aécio Neves e apresenta a situação de Minas Gerais. O tucaninho bicancudo tá querendo se cacifar para 2014, afagando os ianques. Sai em defesa da mercenária Yoni Sanchez, defendendo a liberdade de expressão, mas massacra qualquer opinião que distoe do que é estampado nos jornalões de Minas que recebem gordas verbas para a "publicidade oficial". Há uns 3 anos época em que Aécio ainda era governador do Estado, as cifras apenas para O Estado de Minas chegavam a R$ 800 mil/mês.


Por Altamiro Borges

Em sua coluna na Folha desta semana, Aécio Neves voltou a tratar de política externa, desta vez para demonizar Cuba. O senador tucano, famoso por sumir de Minas Gerais e curtir as suas “folgas” em Miami e Paris, tenta se cacifar como líder da direita nativa. O texto, uma cópia dos memorandos da CIA, objetiva fustigar a política externa soberana, ativa e altiva, iniciada no governo Lula.
Com o título “O silêncio do PT”, o artigo critica o “autoritarismo do regime cubano” e o “regime dinástico dos irmãos Castro”. No tocante ao autoritarismo, os jornalistas mineiros conhecem bem as práticas ditatoriais da dupla Aécio/Andrea. Já os professores, que realizaram a sua mais longa greve no ano passado, são testemunhas da postura truculenta dos filhotes do ex-governador.

Nada sobre o bloqueio dos EUA

O senador tucano também descreve as reais dificuldades vividas pelos 11,2 milhões de cubanos. Mas não diz uma linha sobre o criminoso bloqueio econômico imposto pelos EUA, que completou 50 anos na semana passada. Ele também nada fala sobre a miséria que campeia em Minas, com milhões de pessoas abandonadas pelo poder público, ou sobre as vítimas das recentes enchentes no estado.

Em outro trecho, o tucano esbanja cinismo. Ela critica a “falta de horizonte das novas gerações” de cubanos. O senador realmente está distante do seu estado. Ele esquece que milhões de jovens mineiros, sem qualquer horizonte, já tentaram migrar para os EUA – submetendo-se à violência do império na fronteira com o México e à humilhação do trabalho degradante no solo ianque.

As garras do império

Reforçando a campanha midiática em defesa da blogueira Yoani Sánchez, que vários documentos e vídeos comprovam ser uma mercenária dos EUA, Aécio Neves critica os “olhos fechados” da presidenta Dilma Rousseff em sua recente visita a Cuba. Toda essa histeria para, no final, afirmar que “o flerte com regimes fechados e totalitários, como o de Cuba e o do Irã, expõe publicamente a tentação autoritária que o PT tenta dissimular e que, no entanto, parece estar inscrito no DNA do partido”.

Aos poucos, o senador tucano, tão afastado de Minas Gerais, vai mostrando suas garras para a disputa presidencial de 2014. Com seu artigo na Folha, ele deve ter conquistado mais alguma simpatia dos EUA. No futuro, novos documentos vazados pelo WikiLeaks podem revelar as tramas do colonizado mineiro.

Aeroportos: Concessão = Privatização


 Charge de SponHolz

Comentário: Muito esclarecedora essa entrevista do presidente do sindicato dos aeroportuários (SINA). Vamos ser realistas: essa concessão é dar aos conglomerados multinacionais o direito de explorar um serviço público. Essa história de concessão é balela. O transporte coletivo da nossa cidade é uma concessão pública, você sabia? Mas quem é que manda e desmanda na prestação desse serviço público? A empresa. Qual o papel que as autoridades municipais e o povo desempenham no acompanhamento e fiscalização desse serviço público? O povo não apita nada e as "otoridades" tem as mãos molhadas toda vez que a passagem aumenta. Preparem o bolso, pois dizem que a passagem vai pra R$ 2,50. É lamentável essa postura do governo Dilma. Algumas pessoas, inclusive companheiros e camaradas, tem justificado essa concessão devido a Copa do Mundo. Isso não justifica o ato de conceder à iniciativa privada a exploração dos aeroportos para um evento que ocorrerá daqui a 2 anos e que durará 1 mês. Depois da Copa os empresários explorarão os aeroportos por mais 28 anos (o tempo de concessão total é de 30 anos). Se o problema é de gestão pública dos aeroportos, que se resolva esse problema e que os aeroportos cumpram seu papel. Mas infelizmente, esse governo que eu ajudei a eleger, considera que problema de gestão se resolve com concessão. Importante atentar para o fato de que o BNDES é quem tá bancando tudo! Isso mesmo!!! Dinheiro nosso bancando empresários! Como diria o grande Bautista Vidal: Isso é uma excrescência!!!

 

 Do blog Vi o Mundo


Sindicalista compara concessão de aeroportos ao sistema elétrico



O presidente do Sindicato Nacional dos Aeroportuários (SINA), Francisco Luiz Xavier de Lemos, está convidando a mídia brasileira a visitar o aeroporto de Ezeiza, em Buenos Aires, para descobrir quanto a empresa concessionária, a Corporação América, investiu de dinheiro próprio na melhoria da infraestrutura. A empresa é a mesma que venceu recente leilão para administrar o aeroporto de Brasília.


Lemos comparou a concessão dos três principais aeroportos brasileiros à privatização do sistema elétrico. Segundo ele, o dinheiro investido foi do BNDES, o que permitiu aos empresários lucrar sem arriscar capital. Ele diz que, ao retirar do controle da Infraero os três aeroportos mais lucrativos, o governo Dilma colocou em jogo o futuro de todo o sistema, no qual os aeroportos lucrativos bancavam os deficitários. Veja abaixo a entrevista.

Francisco Luiz Xavier de Lemos: Nós entendemos que a palavra não muda o sentido da coisa. O governo chama de concessão, mas nós entendemos que concessão é uma privatização disfarçada.

Viomundo: Então, a semântica para você não importa…
Lemos: Não. De forma alguma. Acho que concessão, privatização… quando você entrega a responsabilidade ou o patrimônio do estado, você está privatizando algo que deveria estar na mão e sob responsabilidade do estado brasileiro.

Viomundo: O estado brasileiro precisa tocar o aeroporto, você considera estratégico?Lemos: Considero, sim. Eu acredito que 85% dos aeroportos do mundo são o estado que administra, por diversos fatores. Apenas 15% estão nas mãos da iniciativa privada. Destes 15% que estão na mão da iniciativa privada, diversos exemplos são negativos. Há realmente alguns aspectos localizados positivos, eu não nego. Mas há principalmente a falta de investimento.

Para você ter uma ideia o aeroporto de Ezeiza, aqui do lado, em Buenos Aires, quando foi privatizado… grandes aeronaves como o 747-777 e o 767-400, que pousavam em Guarulhos e seguiam de manhã para Buenos Aires para terminar o vôo, as próprias companhias de seguro das aeronaves começaram a cobrar mais caro, porque fez uma avaliação do aeroporto de Buenos Aires. Depois de privatizado ele não teve os investimentos necessários e consequentemente aumentou o risco até de acidente aéreo.

Viomundo: O estado não deveria se concentrar em saúde, educação, segurança pública e deixar os aeroportos para a iniciativa privada?Lemos: Você está falando na questão de saúde e segurança. O setor elétrico foi privatizado com a essa pretensão de que a iniciativa privada melhoraria, iria investir, enfim. O que está acontecendo? Os transformadores do Rio de Janeiro, transformadores de subsolo que deveriam ser de superfície… não fizeram os investimentos necessários, precarizaram demais a mão de obra, ou seja, terceirização, quarteirização, descaso com a legislação trabalhista. E acabou criando problemas terríveis. De vez em quando cai um disjuntor no setor elétrico e deixa a gente no escuro.

Pergunto eu a vocês: no setor aéreo, o que é que cai? Não é disjuntor, cai avião. Até mesmo porque 95% dos acidentes aéreos no mundo, até hoje na história da aviação, ocorrem no processo de pouso ou decolagem e a infraestrutura aeroportuária, seja em equipamento, em pessoal, em condições de pista, em sinalização tem muito a ver com todas as investigações desses acidentes que ocorreram no mundo. Apenas 5% dos acidentes aéreos no mundo ocorrem em vôo de cruzeiro, como o caso da Air France, a não ser nisso todos têm a ver com as condições da infraestrutura aeroportuária.

Viomundo: Foi dito que a Infraero vai continuar cuidando de tudo. Basicamente o que os concessionários vão fazer é cuidar das lojinhas. É verdade?Lemos: A gente criou uma cláusula de barreira no edital para que não ocorresse o que aconteceu com o setor de telecomunicações ou com o setor elétrico, deles terceirizarem ou quarteirizarem o serviço final com qualquer empresa, o que colocaria em risco muito grande a operação de vôo e de transporte aéreo desse país. Para evitar isso, nós conseguimos negociar com o governo e colocar no edital que para o serviço básico do aeroporto tem de ser funcionário direto da concessionária, ou seja, vai ter de contratar mão-de-obra direta, treinar essa mão-de-obra e administrar.

Com uma exceção: a concessionária poderá contratar a Infraero, que é sócia e já tem experiência na questão operacional para cuidar dessas atividades fins, e aí a Infraero seria remunerada à parte da lucratividade, porque ela é sócia. Há uma possibilidade de que a Infraero continue tocando as atividades-fim, ou seja, operações, segurança, carga áerea, isso ficaria na mão do estado e evidentemente a área comercial a gente encara como operação secundária. A área comercial poderia ficar até com a administração da concessionária, desde que o funcionário seja contratado diretamente da concessionária.

Viomundo: Por que somente os três principais aeroportos, justamente os mais lucrativos? E os outros?
Lemos: Pois é. A questão dessas privatizações é que toda a rede Infraero que é composta por 67 aeroportos, 83 grupamentos de navegação aérea, diversos terminais de carga, tudo isso é garantido sem aporte nenhum do governo, é tudo com recurso próprio, da própria Infraero. E só 12 aeroportos brasileiros são lucrativos. Até mesmo por conta de que a Infraero utiliza o modelo da federação brasileira. Nem todos os estados da federação são superavitários. Estados dessa federação são subsidiados por estados como São Paulo, que deve subsidiar um monte de repasses para outros estados que não tem renda.

A Infraero funciona desse jeito. Essa pergunta deve ser feita à presidente Dilma. Ela que tem que dar conta de como ela tira os três grandes, lucrativos, do sistema… e os outros aeroportos, vai entregar o que, à municipalização, à estadualização? Ou o governo vai ter de deslocar recursos da educação, da saúde? Não podem negar… que Teresina, no Piauí, fique sem aeroporto ou com aeroporto precário. Teresina faz parte da federação brasileira, do estado brasileiro e tem de ser subsidiado por alguém.

Viomundo: Mas o argumento é de que com a bolada de dinheiro que vai entrar agora o Brasil enfim terá dinheiro para investir nos aeroportos deficitários…Lemos: De forma alguma, de forma alguma. Primeiro que o estado não é banco, não é corretora, não tem de ficar comemorando ágio nenhum, lucro nenhum. Estado, na minha concepção do que é estado, tem de comemorar o resultado de satisfação em bem estar da sociedade que ele representa. Eu acho que é balela dizer que esse dinheiro vai para aeroporto. Ainda não está muito claro nessa negociata toda como é que entram os 80% de dinheiro do BNDES, que é dinheiro do estado, para financiar em condições extremamente paternais esse tipo de negócio que foi feito com aeroportos. Tá feia a coisa, na minha opinião a coisa tá muito feia e cheirando mal.

Viomundo: O BNDES financia a concessão a grupos privados dos aeroportos lucrativos…Lemos: É o que está acontecendo no setor elétrico. É só vocês investigarem. O investimento dos próprios grupos, dos próprios recursos, esse não tá vindo, não. A hora que acabou o dinheiro do BNDES eles estão abandonando tudo. Eles só lucraram. Dinheiro do próprio bolso, do bolso do empresariado, para investimento, esse não está vindo nem aqui e nem na Argentina. Inclusive é o mesmo empresário que privatizou o aeroporto de Brasília. O principal do consórcio. É só vocês darem um pulinho aqui do lado em Ezeiza, dá uma olhada no investimento que foi feito no aeroporto de Buenos Aires. Não foi feito investimento nenhum, nem vai ser feito.

Viomundo: É o mesmo grupo que ganhou a concessão em Brasília.Lemos: Exatamente. Interessante fazer uma viagem a Buenos Aires, escutar um tango e ver as condições do aeroporto, como é que tá. É do lado, é pertinho, é um convite que a gente faz à nossa mídia, à mídia investigativa. Evidentemente que vocês vão se deparar com uma situação que deve preocupar a sociedade brasileira. O grupo é o mesmo que está assumindo o aeroporto de Brasília.

O governo deixou praticamente oito procuradores de plantão na AGU [Advocacia Geral da União] para combater nossos questionamentos judiciais e acredito que a gente deve provocar uma discussão principalmente no Congresso Federal para que seja avaliado mais profundamente o que tem de realmente concreto, de positivo e de negativo nessa história.

Nós, do sindicato e da Central Única dos Trabalhadores, nós fizemos… durante quase dois anos a gente encaminhou diversos questionamentos para a opinião pública, a mídia e o governo e muitos desses questionamentos não tiveram resposta até agora, em relação ao que melhora, o que piora, que risco corremos. O sindicato vai continuar mobilizando, alertando a sociedade e fiscalizando muito de perto, mais do que nunca, a segurança da atividade aérea no país.

Viomundo: Outro argumento em favor da concessão é de que a Infraero é uma estatal ineficiente.
Lemos: Não encaro como estatal ineficiente, não. Eu acho que é uma estatal que tem quase 40 anos de existência, nunca precisou de um centavo do governo para atingir seus objetivos e mantém um padrão de aeroportos, sendo a sua grande maioria deficitária, não acho ineficiência.

Ineficiência existe na Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), como todas as agências que foram criadas, em seus objetivos, não funcionam. Boa parte, talvez a maior parte dos problemas que temos nos aeroportos é de fiscalização e regulamentação e não é o papel da Infraero, que não tem poder de fiscalizar. Eu acho que só vai melhorar a operacionalidade dos aeroportos quando mudar o procedimento operacional e a agência funcionar. Aliás, nenhuma delas funciona.

Nem ANEEL (Agência Nacional de Energia Elétrica), nem ANATEL (Agência Nacional de Telecomunicações), nem ANAC, eu não vejo eficiência em agência regulamentadora deste país, nenhuma. A gente passaria muito bem sem essas agências.

Fonte: Vi o Mundo