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sábado, 23 de julho de 2011

O samba de Paulinho da Viola em livro

Comentário: Tive o prazer de assistir a um show de Paulinho da Viola na Praça da Estação em Belo Horizonte nos idos dos 90. Após o show saí com a alma leve e um sorriso na cara como quem diz "as coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender" (versos de Coisas do Mundo Minha Nêga). Não tenho palavras para definir o Paulinho da Viola, ternura talvez seja uma delas, mas sem dúvidas existem muitos, mas muitos adjetivos para essa grande figura humana. Reproduzo abaixo artigo de Marcos Aurélio Ruy acerca de livro lançado por Eliete Negreiros sobre a obra desse grande poeta. Segue também nesta postagem um vídeo do samba "Sei lá Mangueira" que Paulinho fez em parceria com Hermínio Belo de Carvalho. Quem canta é Beth Carvalho. Sinceramente acho que o Paulinho não chegou a gravar esse samba - tenho um vinil em que a interpretação é feita por Eliseth Cardoso. O fato é que esse samba deu uma ciumeira, e não é pra menos, no pessoal da Portela. Para compensar Paulinho compôs "Foi um rio que passou em minha vida".


Eliete Negreiros: O dizer da canção no samba de Paulinho da Viola

A cantora Eliete Negreiros lança livro com interpretação de diversas canções do compositor Paulinho da Viola, onde, na parte “outros escritos”, discute poesia e canção versando sobre poetas e estudiosos do assunto.

Por Marcos Aurélio Ruy

No livro Ensaiando a Canção: Paulinho da Viola e Outros Escritos (Ateliê Editorial, 2011, 216 páginas), Eliete Negreiros faz uma análise de algumas canções de um dos grandes compositores da música popular brasileira e ainda discute questões importantes da relação da poesia com a música e da arte com a vida.

Interessou para ela as canções meditativas. “Algumas canções criam uma temporalidade e uma atmosfera propícia à reflexão; são as canções meditativas, que nos induzem a refletir durante e após a sua execução”, afirma Eliete.

Para ela Paulinho da Viola produziu canções de “modo decidido e delicado com que trata e sempre tratou nossos assuntos humanos, demasiado humanos, numa época em que a vaidade e a competição tomam conta da alma, onde o mundo parece um supermercado de produtos descartáveis, tendo em suas prateleiras valores e sonhos humanos em liquidação.”

A primeira canção analisada do compositor carioca é Para Ver as Meninas, no qual, segundo Eliete, Paulinho da Viola não quis usar os elementos do samba comum: “a dor de amor e suas inúmeras, dolorosas e previsíveis variantes.” Faz um samba paradoxal que pede “silêncio, por favor”, mas segue cantando, quebrando o silêncio e desejoso de fazer “um samba sobre o infinito”. Dialético também quando confessa o seu desencanto com o mundo, mas professa a transformação em um novo mundo.

Modernidade de Paulinho da Viola

Temática pertinaz da época analisada pela autora, começo dos anos 1970. Muito do que era dito ou escrito precisava enganar a famigerada censura, portanto, escrito ou dito com figuras de linguagem. Mas, segundo Eliete, “É na contemplação que a imagem ganha força e a palavra se transforma em obstáculo. É através do olhar que ele tenta a transcendência.”

Estes são os traços, para ela, da “modernidade nas canções de Paulinho.” Para ela “a música”, de Paulinho da Viola “constrói-se pela dialética entre estes pares de opostos, tensão e relaxamento.” Provavelmente a tensão ditatorial da censura e do esmagamento social e cultural promovido pela ditadura capitalista do prazer a qualquer custo, do trabalho como deplorável e da ida como fugaz. E o relaxamento de saber que um dia vem após o outro. Já na canção Pressentimento, Paulinho conclui: “Ai! meu sofrimento, ver meu sonho se acabar.”

Em Samba Curto, o compositor expõe uma “idéia de proteção contra algo que se teme” e essa defesa ao temido se “expressa na imagem do escudo.” A letra diz “meu samba andou parado até você aparecer mudando tudo, lançando por terra o escudo do meu coração.” O autor chega à conclusão de que: “quem quiser que pense um pouco, eu não posso explicar meus encontros, ninguém pode explicar a vida, num samba curto.” Por isso, Eliete acentua que “na poética de Paulinho da Viola vejo a possibilidade de se pensar a canção como um lugar de reflexão sobre o mundo.”

Cotidiano do brasileiro

Uma canção emblemática de Paulinho da Viola é Coisas do Mundo Minha Nêga, onde narra o “retrato cotidiano” e enfrenta o dilema de aprender com as mulheres as coisas do mundo. É uma espécie de denúncia do cotidiano massacrante do trabalhador brasileiro, que vive indo e vindo de casa para o trabalho e depara com cenas da decadência das grandes cidades. O que fica ainda mais claro no samba Comprimido, no qual o trabalhador comete suicídio após bater na mulher em briga do casal.

Os dois acabam numa delegacia onde o delegado afirma ser incapaz de julgar coisas do amor. Uma forte denúncia da opressão vivida pelas mulheres e da negligência policial para tratar das questões femininas. Nem a justiça se metia na briga entre marido e mulher, mesmo que ela apanhasse.

No final da música Paulinho cita Cotidiano de Chico Buarque, para realçar sua mensagem. “Um dos traços”, de Paulinho da Viola, diz Eliete “é a simplicidade, seu jeito de dizer as coisas de um modo natural”. Na canção Roendo as Unhas, Paulinho “alia os instrumentos acústicos tradicionais, ao piano elétrico, ao baixo elétrico e à bateria, sinalizando uma modernização do samba”, analisa Eliete.

Eliete Negreiros faz um breve histórico do samba carioca e avança na definição de Manuel Bandeira do que seja um poeta. Para Bandeira o poeta é “um sujeito que sabe desentranhar a poesia que há escondida nas coisas, nas palavras, nos gestos, nos sonhos.”

Apresenta também uma discussão sobre poesia e canção contrariando os setores elitistas que procuram tirar do campo da literatura as letras de músicas, entendendo-as como algo diferente da poesia e mostra teorias a respeito da ligação entre música e poesia. Eliete pergunta: “sem entrega não é possível ouvir o que uma canção está querendo nos contar. Não seria este conhecimento prazeroso uma possibilidade de diálogo entre a razão e a emoção?"


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