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quinta-feira, 14 de julho de 2011

Fiasco da fusão Carrefour-Pão de Açúcar



Charge de Duke



Comentário: Importante reflexão de Umberto Martins acerca das implicações da fusão Pão de Açúcar e Carrefour.

Reza um velho ditado popular que quando dois meliantes brigam algo de bom acontece.

Por Umberto Martins

A desavença entre o empresário Abílio Diniz e seu sócio francês na Companhia Brasileira de Distribuição (CBD, que inclui o Pão de Açúcar), o grupo Casino, afastou o risco de participação do BNDES no polêmico projeto de fusão da empresa varejista com as filiais brasileiras do também francês Carrefour. O banco público, que inicialmente cogitava gastar mais de R$ 2 bilhões na transação privada, anunciou na tarde de terça-feira (12) que estava fora do negócio, acatando recomendação da presidente Dilma.

Pulo do gato

Os executivos do Casino se sentiram como cônjuges traídos pelos movimentos de Diniz, que procurou um acordo com a direção do Carrefour e o respaldo do governo sem consultar os sócios, informados da ocorrência pelo semanário francês Le Journal Du Dimanche. Jean-Charles Naouri, presidente do conselho de administração do grupo francês, classificou a manobra de atentado à “ética dos negócios” (sic). É um comportamento típico de magnatas capitalistas.

Em 2005, o fundador do Pão de Açúcar assinou um acordo de acionistas com o Casino, pelo qual este aumentaria gradualmente sua participação na CBD até adquirir, em 2012, o controle da companhia. Recentemente, próximo do prazo estabelecido para a transferência do comando, usando a notável influência que goza no governo, ele ensaiou um pulo do gato, negociando furtivamente a fusão com o Carrefour e o financiamento bilionário do BNDES. Mas a reação indignada do sócio francês e as críticas suscitadas ao banco público acabaram inviabilizando a obscura transação.

Devemos é comemorar

O povo brasileiro não tem razões para lamentar o fiasco da fusão, que interessava exclusivamente ao capitalista Diniz e ao Carrefour. O negócio proposto pelo empresário não garantia a nacionalização da nova empresa, que de um ou outro modo cairia nas mãos dos franceses. Certamente resultaria na supressão de empregos e ampliação da concentração no ramo, em detrimento dos consumidores e das empresas de menor porte.

Conforme notou o ex-presidente do BNDES Carlos Lessa, “Abílio Diniz multiplicaria seu patrimônio, mas, para o Brasil, praticamente nenhuma vantagem. O setor varejista já está desnacionalizado [e não é o único nem o mais importante]”. O processo de concentração no ramo de supermercados, relativamente recente, foi acompanhado, no Brasil, pela progressiva desnacionalização. O avanço de gigantes como o francês Carrefour e o estadunidense Wal-Mart (maior empresa do mundo pelos critérios da revista Fortune) não são os únicos sintomas deste triste fado. O próprio Pão de Açúcar, que parecia o último brasileiro de peso no ramo, já estava prometido aos franceses.

Cobra engolindo cobra

O processo de concentração e centralização do capital, analisado por Marx em meados do século 19, é inexorável e cruel com os mais fracos. Nele sobrevivem apenas os grandes grupos, engolindo os menores. Foi no seu rastro que surgiram as modernas multinacionais e teve início, como observou Lênin, a nova fase do capitalismo, o imperialismo, o capitalismo dos monopólios.

Abílio Diniz engoliu alguns concorrentes nacionais e, pelo visto, agora chegou a sua vez de ser engolido. É curioso e irônico que o fundador do Pão de Açúcar e seus aliados levantem a bandeira dos interesses nacionais para justificar uma transação em benefício próprio e, de resto, com forte vocação para escândalo. Afinal, não foi o próprio Diniz que assinou, em 2005, o acordo que transferia o controle da CBD ao Casino? Não merecia, por isto, ser caracterizado de entreguista?

O capitalista e o capital

O capitalista, notava Karl Marx, encarna a lógica e os interesses do capital. O capital não tem pátria, ou melhor, sua única pátria é o lucro. O deslocamento de fábricas e investimentos da Europa e dos EUA para a China e outros países asiáticos – em busca de mão de obra barata e maximização dos lucros e em detrimento do emprego de milhões de trabalhadores nos países de origem – é uma prova, entre outras, desta verdade.

O aborto do Carreçúcar nos remete à polêmica sobre a política do BNDES a favor da consolidação e expansão de grandes empresas privadas nacionais. Devemos abordar o tema à luz da teoria marxista, ou, em outras palavras, sob uma ótica classista, conforme aconselha o meu amigo e camarada Carlos Pompe, colunista deste Vermelho.

Outro caminho

O governo Lula procurou, com êxito, resgatar o BNDES do desmanche e da irrelevância a que foi relegado pelo tucano FHC. É inegável o papel positivo do banco no desenvolvimento nacional. Mas isto não isenta a instituição de críticas. O dinheiro que opera é público, apesar das insinuações em contrário, e não só estatal, pois compreende a administração de recursos do Fundo de Amparo do Trabalhador (FAT) que em maio deste ano somavam R$ 137,91 bilhões.

A monopolização da economia e expansão dos negócios e interesses de grandes capitalistas brasileiros no exterior, financiada com dinheiro público, não está em sintonia com um projeto nacional de desenvolvimento fundado nos interesses da maioria do povo, dos pequenos e médios empresários e, em especial, da classe trabalhadora brasileira. Há destino melhor e mais produtivo para o dinheiro do povo.

Não podemos olvidar o fato de que vivemos um contexto de crise geral do sistema capitalista, que sugere e em certa medida impõe aos povos a busca de alternativas sociais mais avançadas e radicais do que uma inserção supostamente mais vantajosa na globalização neoliberal seguindo os passos das economias consideradas mais avançadas, ou seja, trilhando o caminho da monopolização burguesa, capitulando à lógica da concorrência internacional e reproduzindo as relações imperialistas. Os interesses da grande burguesia não são progressistas em lugar algum do globo. Outro caminho é possível e, em nome dos interesses imediatos e futuros da classe trabalhadora, devemos procurá-lo ou, se preciso, inventá-lo, a exemplo do que fizeram líderes revolucionários de outra época.

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