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terça-feira, 17 de maio de 2011

Entrevista com o Prof. Luiz Pinguelli Rosa, candidato à presidência da SBPC

Luiz Pinguelli Rosa: “A SBPC deve assumir o debate dos grandes temas nacionais”
Por Fábio Palácio
A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) encontra-se em pleno processo eleitoral para a escolha de seu novo presidente, que comandará a entidade maior dos cientistas brasileiros no biênio 2011-2013. A votação, realizada por meio de cabines eletrônicas abertas aos sócios quites da entidade, ocorre até o próximo dia 1º de junho. Candidato apoiado por diversos segmentos do campo democrático e progressista, Luiz Pinguelli Rosa falou a Grabois.org, em encontro realizado no último dia 9 no Rio de Janeiro, sobre os desafios atuais da ciência brasileira e as razões que motivam sua candidatura à Presidência da SBPC.

Pinguelli Rosa é doutor em Física e mestre em Engenharia Nuclear. Foi presidente da Eletrobrás e diretor do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia (Coppe/UFRJ) por 3 mandatos. Foi também secretário geral da Sociedade Brasileira de Física (SBF) por dois mandatos e membro dos conselhos da SBPC e da SBF. Atualmente é diretor da Coppe, professor titular do Programa de Planejamento Energético da mesma instituição e secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas. Bolsista de Produtividade em Pesquisa 1A do CNPq, realiza pesquisas em planejamento energético, mudanças climáticas e epistemologia e história da ciência.

Grabois.org – Quais os desafios da ciência brasileira neste início de século 21?

Luiz P. Rosa – O grande desafio da ciência brasileira é avançar no conhecimento, posicionando-se na fronteira. Precisamos nos ombrear com o que está sendo feito no mundo inteiro, porque a ciência é totalmente internacionalizada. Ao mesmo tempo, essa produção de conhecimento precisa estar sintonizada com os interesses do país.

O Brasil tem uma dívida social imensa. Mesmo com o inegável avanço dos últimos anos, quando conseguimos retirar da pobreza extrema cerca de 30 milhões de brasileiros, há ainda muitos milhões de brasileiros em situação precária. Mesmo esses 30 milhões que saíram da pobreza estão em situação diferente daquela da grande classe média da região Sudeste, da região Sul. De meu ponto de vista, portanto, a ciência tem de atentar para a questão de como avançar no conhecimento colocando-o, ao mesmo tempo, a serviço do país, e particularmente de sua população mais pobre.

Grabois.org – Isso inclui a aplicação do conhecimento na indústria, na agricultura, nos serviços?

Luiz P. Rosa – Claro! Hoje o Brasil está se especializando na produção de produtos primários. Exportamos soja, exportamos minério de ferro e alguns poucos produtos industrializados – aviões da Embraer, veículos automotores etc. Enquanto isso, países como a Coreia do Sul e principalmente a China, que estavam em situação igual ou pior que a do Brasil há poucas décadas, hoje estão se industrializando rapidamente, fabricando produtos de alto valor agregado com conteúdo tecnológico, formando muitos milhões de engenheiros. Já o Brasil não seguiu esse caminho. Houve uma bifurcação histórica e que nós não conseguimos ainda resolver: como o Brasil pode passar a produzir bens de mais alto valor agregado, que exigem qualificação profissional melhor. Produzir bens desse tipo significa gerar empregos de alto nível e aumentar a renda da população.

Grabois.org – Isso coloca um grande desafio também para nossa educação básica?

Luiz P. Rosa – Sim, e ela é um dos pontos mais vulneráveis. Penso que devemos prestar muita atenção nisso. Sabemos, por exemplo, que há um déficit de engenheiros no Brasil. Na conta de engenheiros por mil habitantes, estamos muito atrás (como eu falei) da Coreia e da China, por exemplo. Mas o problema não é só esse. É preciso cuidar da educação como um todo. O pior da educação é o nível fundamental. Entre aqueles que entram no primeiro ano do ensino fundamental – predominantemente público – e os que entram na universidade há um afunilamento terrível. Aí está uma das maiores injustiças do Brasil: o péssimo nível do ensino fundamental.

Grabois.org – Quais os grandes desafios da SBPC na atualidade?

Luiz P. Rosa – A meu ver a SBPC deve atuar em torno de três grandes eixos: a ciência – e junto dela a tecnologia e a inovação –, a educação e o meio ambiente, que sem dúvida nenhuma é um problema importantíssimo para o Brasil. A SBPC precisa orientar esse debate. Nosso país tem de equacionar a questão do meio ambiente e ao mesmo tempo retirar essa grande camada da população da extrema pobreza. Eu não concordo em manter as pessoas num lugar às vezes sem quaisquer meios tecnológicos, vivendo apenas dos recursos naturais, expostas a doenças. Para mim isso é um equívoco. Todos nós brasileiros merecemos o mesmo nível de vida.

Grabois.org – Por que o senhor é candidato a presidente da SBPC?

Luiz P. Rosa – Fui apresentado pelo Conselho como candidato e aceitei porque acho que se deve estimular um debate. Não tenho nada contra a Helena Nader [presidente da SBPC desde fevereiro de 2011 e candidata a novo mandato], até mesmo porque ela veio da gestão do Marco Antônio Raupp, que me apóia, que eu considero uma pessoa extremamente importante para a SBPC e com quem tenho grande identidade de pontos de vista. Mas acho que é necessário debater essas questões que apontei.

Participei muito das campanhas e atividades da SBPC. Fui secretário-geral da Sociedade Brasileira de Física por dois mandatos – um deles com o José Goldemberg [presidente da Sociedade Brasileira de Física de 1975 a 1979] e outro com o Mário Schenberg [1914-1990, presidente da Sociedade Brasileira de Física entre 1979 e 1981], considerado por muitos um dos físicos teóricos da velha guarda mais importantes do Brasil, e que foi inclusive personagem histórico da esquerda brasileira. Vivi naquele tempo a transformação da SBPC – como também da Sociedade Brasileira de Física – na direção de assumir os grandes temas nacionais, que eram ligados basicamente à resistência à ditadura. É claro que os problemas hoje são outros, são mais diversificados. Há, por exemplo, o Código Florestal – tema sobre o qual a SBPC e a Academia Brasileira de Ciências não poderiam ter deixado de se manifestar. Mas eu acho que se tem de ir muito mais adiante. E nisso eu poderia contribuir na SBPC, dada minha experiência. Fui um dos fundadores da Associação Nacional dos Docentes, na época em que o movimento docente era um movimento de resistência à ditadura militar e a favor da democratização da universidade, da liberdade acadêmica, da volta dos afastados pelo AI-5... Essa foi uma experiência importante da qual tive a oportunidade de participar.

Mais tarde, como afirmei há pouco, compus a Sociedade Brasileira de Física num período de críticas profundas ao acordo nuclear Brasil-Alemanha. Foi um período de intensa ação das sociedades científicas – falo em particular da Sociedade Brasileira de Física e da SBPC – que hoje está superado. O grande problema do país não é mais a resistência a alguma coisa, mas sim a construção de um novo projeto de país. Avançamos muito, mas há ainda muitas questões em aberto, há muito que ser feito. E isso extrapola stricto sensu a atuação dos partidos políticos. Há questões transversais, como ciência, tecnologia, educação e meio ambiente. Em síntese, penso que a SBPC deve assumir abertamente o debate dos grandes temas nacionais a partir dessas questões.

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