Visitantes

segunda-feira, 16 de março de 2009

Um poema de Brecht


Berthold Brecht foi um grande poeta e dramaturgo alemão que defendeu em seus versos e peças a luta dos operários e povos contra a opressão do sistema capitalista.
A seguir um belo poema que nos leva a seguinte reflexão: O que eu tenho com isso???


Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.


Bertold Brecht (1898-1956)

Um poema de Eduardo Alves da Costa


Muitos acham que esse poema é de Maiakovski mas ele é de Eduardo Alves da Costa (foto), poeta brasileiro em seu livro No caminho com Maiakovski. É uma importante reflexão para os atuais e aqueles que virão.


Na primeira noite, eles se aproximam e colhem uma flor de nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem, pisam as flores, matam nosso cão.
E não dizemos nada.
Até que um dia, o mais frágil deles, entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a lua, e, conhecendo nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.
E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Bacheado



Bacheado

Cecil Seltzer

Ouvindo Bach
Bradenburgueando
num solavanco
Em que a harmonia
Parece um riff de guitarra
Em que todo o silêncio
Da minha alma
Parece um grande estádio lotado
Onde uma arquibancada
está prestes a desabar
por causa de um gol mudo
pra uma torcida rouca
num final de tarde surdo
com replay visto por um cego

quarta-feira, 4 de março de 2009

Esse é um poema de Cecil Seltzer.

No Fundo do Bolso





O que me sobrou
foi poesia.
E essa queimação
no esôfago.
Não posso dizer
que caí no poço,
e sim no bolso
onde não encontrei
fundo.
Não me chamam
Raimundo,
Nem estou na
Quadrilha
Não encontro outra rima
Pro meu nome a não ser:
Entrei pelo cano,
Entrei pelo cano...
Me esforço pra ver
O urubu pintado de ver-
De
vez em quando,
como sempre
me atravanco com um passarão.
Logo vôo e vou embora...
Acho que meu alpiste cozinhou
Posso enfim,
acabar com esse ronco.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Contra o Holocausto Palestino

A imagem que acompanha a poesia a seguir é a de uma criança aniquilada em um dos ataques israelitas ao povi palestino. Isso voc não verá na TV. Isso não é televisionado. É uma cena forte, mas não faço e nem gosto somente de poesias que falam de flores. Isso é esse mundo filho da puta, zorra, cão do caralho que a gente tem que transformar num lugar em que crianças inocentes não sejam massacradas como esse pequenino da foto.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Contra o Holocausto Palestino


A seguir um poema de Adalberto Monteiro sobre o massacre que Israel está praticando contra os palestinos. O poeta nos leva a refletir sobre qual posição tomar diante dos fatos.

Dê um grito contra a matança em Gaza!
Adalberto Monteiro*

Corre sangue no rio Jordão
E os sacrificados não são ovelhas,
Mas meninos e meninas
Que agora nos tanques
Já não poderão atirar pedras...

Já não há gaze para tantos
Feridos em Gaza.
Atacada por mar, ar e terra,
Gaza sangra, Gaza geme,
Cercada, mutilada, Gaza freme.
Gaza não é monte de argamassa,
Gaza é gente...

Mas, Gaza respira,
Gaza ama e resiste,
E lutará,
Até a última oliveira,
Até a última tamareira,
Até o último menino...

Ó povo judeu,
Que terrível crime comete
Vosso Estado!
A que estado caíste!
Vós, vítima dos guetos,
Vós, vítima do holocausto,
Vossos líderes
Tornaram-se de Hitler
Aprendizes.
Alguns já causam inveja ao mestre.

Ó povo judeu,
Liberta-te, pela memória
Dos teus,
Da vergonha de tua estrela
Adquirir a aparência
E a essência da suástica!

Como querer de um povo condenado ao gueto,
De um povo pelo inimigo dividido,
Reagir com a polidez dos diplomatas?
Ah!, amado povo palestino,
Por Arafat, por teus mártires,
Reconstrói tua unidade!

Que a bravura de Gaza,
Não nos acomode à poltrona,
Que a carnificina que a TV não mostra
Não seja apenas um filme que nos arranca lágrimas...
Olha para ti!
Acaso não és um romano
Sentando na torpe arquibancada
Vendo na arena
Os cristãos lutando contra os leões?

Faça alguma coisa por Gaza,
Mande uma carta ao teu político,
Meta a mão no bolso,
Sacuda os ombros de teu amigo,
Vá à tua janela e dê um grito,
Vá ao templo, corra à praça,
Mande um imeio, ou use outro meio,
Só não vale cruzar os braços
Ante essa matança, essa desgraça...


*Adalberto Monteiro, poeta e jornalista, é presidente da Fundação Maurício Grabois




segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

O Homem e suas Viagens

O Homem - As Viagens

Carlos Drummond de Andrade

O homem, bicho da terra tão pequeno
Chateia-se na terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.

Lua humanizada: tão igual à terra.
O homem chateia-se na lua.
Vamos para marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em marte
Pisa em marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza marte com engenho e arte.

Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a vênus.
O homem põe o pé em vênus,
Vê o visto — é isto?
Idem
Idem
Idem.

O homem funde a cuca se não for a júpiter
Proclamar justiça junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.

Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira terra-a-terra.
O homem chega ao sol ou dá uma volta
Só para tever?
Não-vê que ele inventa
Roupa insiderável de viver no sol.
Põe o pé e:
Mas que chato é o sol, falso touro
Espanhol domado.

Restam outros sistemas fora
Do solar a col-
Onizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver.


Pra você ouvir esse poema na voz de Carlos Drummond de Andrade e uma bela música com Frejat acesse:

http://www.youtube.com/watch?v=hsGP-fVuhtc

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Em lugar de uma carta


Lílitchka!
EM LUGAR DE UMA CARTA


Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto –
um capítulo do inferno de Krutchônikh.
Recorda –
atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração – aço.
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez, com zanga.
No teu “hall” escuro longamente o braço,
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
Lançarei meu corpo à rua.
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consintas,
meu amor,
meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
O meu amor – duro fardo por certo –
pesará sobre ti
onde quer que ti encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
Num último grito estronde.
Quando um boi está morto de trabalho
ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
Ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
Para mim
Não há sol,
E eu não sei onde estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele
trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com o seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos – rodopiante carnaval –
dispersarão as folhas dos meus livros...
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?

Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.

Vladímir Maiakóvski


26 de maio de 1916. Petrogrado.

Tradução de Augusto de Campos